Vocês gostam mesmo desta cantora Céu? Não consigo entender porque a mocinha é tão saudada se ela faz uma MPB moderninha à antiga como dezenas de outras e interpreta igualzinho a outras dezenas. Sua canção incluída na trilha de Não por Acaso é chatinha como as outras que estão no filme, creditadas a Katia B e Nasi, do Ira!. Esta última, uma tentativa de reproduzir o clima de uma cena do longa, deu completamente errado.

Talvez o melhor fosse se concentrar na música instrumental composta por Ed Cortês, que já assinou trabalhos para Cidade de Deus, parceria com Antônio Pinto, e Colateral, em que orquestrou, arranjou e regeu a trilha. Mas mesmo assim, o resultado tem altos e baixos e não é exatamente um dos maiores méritos do filme.

Uma das coisas que a estréia do até então diretor de curtas Philippe Barcinski no comando de um longa-metragem tem de melhor parece ter sido uma herança de sua predileção pelo corte, pela montagem. Esse trunfo não está exatamente na edição do filme, que é boa, mas na condução do texto. O roteiro abdica de ganchos para movimentar a ação dos personagens.

Barcinski e seus co-escritores ignoram as tradicionais deixas, que geralmente são clichês didáticos para que o espectador entenda porque determinada coisa aconteceu e que os torna dependentes de uma narrativa mais amarradinha. Esta falta de ganchos tem dois efeitos: ao mesmo tempo em que produz um filme simples e direto dá um equilíbrio à carga dramática do longa, que fica mais seco e direto.

Com um material assim, Barcinski mantém um controle rígido do filme, que parece milimetricamente calculado, o que pode soar como uma crítica, mas não é, sobretudo, quando o tema do trabalho é exatamente esse, o controle. A estrutura é linear é uma bela surpresa e vai de encontro às expectativas criadas pelos dois curtas mais famosos de Barcinski, Palíndromo (2000) e A Janela Aberta (2002).

O modo como o roteiro arquiteta as duas histórias paralelas, que não se cruzam, a partir de um único fato, o afasta do cinema de inter-relações que infesta o cinema atual. O principal problema talvez seja que a tentativa de reflexão sobre o planejamento excessivo, o rigor as formas de manipulação não vá muito além dos exemplos dos personagens, não ganhe mais repercussão.

O elenco é bem interessante, sobretudo as caras mais novas como Rita Batata e Branca Messina. Rodrigo Santoro está correto e sua performance segue a linhagem do filme, sem excessos. Leonardo Medeiros é que está um pouco além do tom, embora não prejudique o trabalho. A melhor interpretação vem de Cássia Kiss. A atriz tem apenas duas cenas, mas na primeira delas está genial.

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[Não por Acaso, Philippe Barcinski, 2007]

Comentários

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9 comentários sobre “Não por Acaso”

  1. Putz, como é bom ver tantas opiniões diferentes sobre uma mesma obra. Mas continuo achando que cada olhar traz em si a experiência de cada um sobre a coisa vista (sei, sei, até isso é um clichê, but…). Acho o Leonardo Medeiros muito bem. Me convence o tempo inteiro, mesmo olhando pro horizonte dizendo algo que tantos pensam vez-em-quando e nunca dizem). Gosto principalmente de duas coisas no longo do Barcinski: a cidade-protagonista (clichê lindo de viver no meu caso, já que amo Sampa) e a tristeza pungente nos olhos da maioria dos personagens. Coisas assim a gente nem comenta. Só sente.

  2. Eu acho até que, se levarmos em conta a safra tenebrosa de filmes brasileiros, este se destaca um pouquinho. Mas, sem levar em conta o contexto, ainda não consigo encontrar muitos pontos positivos nele…

  3. Eu também acho que o filme é bom, Guilherme, mas não gostei tanto do Medeiros não. E olha que geralmente gosto dele…

    Será que uma letra em inglês soaria menos agressiva, Drex? Ppode até ser, mas só se não for da Céu…

  4. Acho o filme no geral simpático, com seus acertos e erros, meu saldo geral é positivo. Acho o Léo Medeiros muito foda nele.

    Sobre a Céu, insuportável é pouco pra descrever.

  5. Ah, Tiago, não seja tão cruel 🙂

    Merece, no mínimo, um coração aberto esse filme do Barcinski. O filme claramente se destaca do que se tem costumado produzir na nossa terrinha brasilis – diálogos que não doem no ouvido, temática urbana, interpretações sutis, pouco espaço para proselitismos e verborragia. Até acho, Chico, que o fato de não ir tão fundo na tal “tese” da história é um ponto positivo pro longa.

    Não vai marcar tua vida, mas é um filme agradável. Quase argentino, ehehe.

    Concordo que a trilha sonora é o ponto que destoa. Pesadíssima. Explícita demais. Não sei se foi mesmo um erro de mão, ou se é apenas a nossa falta de costume em ver alguém cantando em português num filme. Engraçado como é estranho. A letra parece invadir demais a história. Uma impressão que me escapa quando a música é em inglês. Por outro lado, lembro agora de “Cabra Cega”, como o Medeiros também, onde a música do Chico também era colocada em primeiro plano, mas com um resultado melhor.

    Mas, enfim, só a Letícia Sabatella já compensa tudo isso. Corretores à parte, continua linda.

  6. Oi, Patrícia, pra que se desculpar? Afinal, este é um dos temas do post também e foi um assunto tão significativo que abriu o texto. Bem-vinda ao anti-fã clube da Céu!

    Tiago, vai ver o Leonardo ouviu dizer que, “além do horizonte, existe um lugar…”, mas, apesar de achá-lo u tom acima do filme, acho o longa bom.

    Nunca ouça Céu ao volante!

  7. Olha, Chico… desculpa o comentário quase nada a ver com o filme em questão (que não vi, mas quero ver), mas eu tinha que comentar aqui, já que nunca leio alguém falar nada negativo da cantora Céu. Não a acho talentosa. A voz me dá a impressão de uma garota que está sempre bêbada. Acho a música fraca, insossa, inócua… sei lá, mais do mesmo, nada original. Enfim, é isso. Precisava desabafar e o começo do seu post me deu esta vontade louca de fazer isso. Desculpa aí. rs
    Beijos, até mais.

  8. Só de pensar no Leonardo Medeiros olhando pro horizonte e afirmando, pensativo, que “uma coisa acontece agora e a gente nunca sabe onde vai dar” e, puts: muito bobinho, imaturo, um lirismo vazio que não me convenceu em nenhum momento.

    E um filme extremamente calculado sobre personagens metódicos que são levados a aceitar as arestas da vida, para mim, é uma bela de uma contradição. Nada mais que isso.

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