Norte, o Fim da História

Fabian comete um crime. Joaquin recebe a culpa. Eliza fica com o fardo. As quatro horas e dez minutos de Norte, o Fim da História (e as cinco, oito, nove horas de outros trabalhos de Lav Diaz) fazem parte da estratégia do diretor para capturar a imensidão da vida. Grande parte deste longa (sendo longa uma palavra que não parece suficiente para dar conta de seus filmes) é dedicada a apresentar suas personagens, suas vidas, seus cotidianos. Os filmes do filipino são imensos. E não apenas por suas longas durações, mas por sua intenção de registrar tudo da maneira mais ampla e profunda possível.

Em boa parte das primeiras cenas, o cineasta não se preocupa com a velocidade, nem em fornecer todos os elementos da trama. O mais importante nesses longos momentos iniciais do filme é a capacidade de informar quem são e como vivem aquelas pessoas antes mesmo de começar a contar suas histórias. Essa paciência não é só fundamental para encontrar o tom de Norte, que não é um filme contemplativo como poderia se pensar, mas construir a base, digamos, filosófica para esta versão livre de Crime e Castigo, de Dostoievsky.

Do clássico russo, Lav Diaz retoma algumas temáticas: a amoralidade do planejamento de um crime, a crise ética do protagonista, o abismo social entre as classes. Premissas porque o filme parte disso para seguir seu próprio rumo, para desenhar suas personagens e entregá-los ao roteiro da vida. Fabian tem um discurso poderoso, raivoso, determinado, que na performance de Sid Lucero encontra uma porta-voz espetacular. O ator, que começou sua carreira trabalhando com Lav Diaz, entende, encarna e traduz a verdade da personagem, um trabalhador rural ilustrado e revoltado com o mundo, cujas ideias parecem deixar de ser nobres a partir do momento em que são colocadas em prática.

A intimidade com o diretor fez Lucero transformar os longos planos-sequência de Diaz em cenas cheias de ação, sobretudo de ação verbal, com debates entusiasmados, furiosos até, com quem está à volta do protagonista. O “primeiro tempo” de Norte, o primeiro filme do filipino a ser lançados nos cinemas brasileiros passa muito mais rápido do que supõe os que se assustam com sua longa duração. E o espectador se pega tão envolvido com a história e os dilemas do filme que não sente o peso desse tempo passar. A duração do filme parece absolutamente necessária. Ou, no mínimo, muito bem aproveitada.

Como faz em seus filmes, inclusive nos muito mais longos do que Norte, Diaz utiliza o tempo que julga necessário para compor esse mosaico, inclusive a monumental quantidade de eventos aproxima a cronologia do filme de uma “cronologia da vida”, em que a história de uma personagem reflete na dos outros, mas de maneira bem distante do jogral do mal, instituído por Paul Haggis, Alejandro Gonzalez Iñarritu e defendido por tantos cineastas nos últimos dez anos.

Se Fabian luta com seus dilemas e Eliza luta para sustentar a família, talvez a luta mais dura seja a de Joaquin, que encontra na prisão uma estrutura de poder tão violenta e repressora que parece uma metástase da que existe fora da cadeia. A violência, por sinal, aparece no filme em vários níveis. É física nos atos de Fabian e nos golpes recebidos por Joaquin. É uma violência social nos passos de Eliza, a mulher que abandonou o marido na prisão para reinventar sua vida. Se com suas três personagens, Lav Diaz tenta dar conta da relação de causa-e-efeito de um discurso, com elas também, ele parece traduzir sua própria luta pelo cinema.

Como Eliza, Diaz reinventa o tempo e se oferece uma nova narrativa. Como Joaquin, o diretor resiste ao massacre de mercado que não faz esforço para compreendê-lo. E, como o idealista Fabian, o filipino analisa o perigo de apontar onde está o mal. Norte pode ser um filme político poderoso e de forte cunho social, mas também é um exercício de auto-consciência.

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[Norte, Hangganan ng Kasaysayan, Lav Diaz, 2013]

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