O Abismo Prateado

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci

Violeta, a protagonista de O Abismo Prateado, não encontra espaço para sofrer. A dor de ter sido abandonada pelo marido, sem explicações, é sufocada pelo movimento do mundo. Numa das cenas mais significativas do filme de Karim Aïnouz, seu diálogo com outra personagem, o momento em que ela tenta entender o que está acontecendo com seu casamento, é abafado pelos ruídos de uma obra. O desespero da personagem ganha novas dimensões, invade o cinema e faz o espectador sofrer junto com Violeta. Enquanto ela vaga pelas ruas do Rio de Janeiro, primeiro buscando explicações para a partida do marido e depois caçando um lugar para viver sua dor, o diretor deixa pistas sobre os detalhes de sua personalidade, controladora e metódica, que podem ter feito com que Djalma fosse embora.

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

Uma imagem fundamental para o filme, que tem uma bela fotografia de Mauro Pinheiro Jr., é a última em que Djalma e Violeta aparecem juntos. É o beijo de despedida do casal, através do vidro do box do banheiro. Uma cena em que o reflexo projeta a imagem da esposa sobre a do marido, como se ela beijasse a si mesma, como se ele não estivesse mais ali. Uma imagem de significação importante para a questão central do filme: para ela, é a despedida temporária para ir para mais um dia de trabalho; para ele, o fim de uma história de amor que durou quinze anos. Na cena seguinte, Djalma vai até a sacada do apartamento, que acabou de comprar para deixar a família “segura” após sua partida, e tenta encontrar a mulher e o filho que se perdem nas ruas do Rio de Janeiro, já indicando que aquele momento de separação já passa a ser consumido pela rotina de uma grande cidade.

E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Violeta, já consciente da partida do marido, procura um lugar para fugir, para escapar da realidade de sua vida, mas se vê impedida de ficar sozinha, se vê eclipsada pelo som a seu redor, pela vida que insiste em seguir, pelas pessoas, ruas e prédios que criam uma atmosfera sufocante e opressora. Uma atmosfera que sempre esteve lá, mas que só se revelou no momento em que Violeta precisou ser uma – e não uma no meio de milhões. A cidade se assume como uma personagem do filme, um motor vivo que parece querer sabotar a escapada da protagonista, fechando suas portas para que ela abandone sua tristeza, fazendo com que ela sangre literalmente. É bem doloroso acompanhar a jornada desta mulher. Talvez por isso mesmo o filme a coloque em frente a outros personagens.

Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz

O filme de Aïnouz é inspirado pela letra de Olhos nos Olhos, um dos maiores clássicos de Chico Buarque, que virou um hino romântico brasileiro na voz de Maria Bethânia. Mas a relação entre filme e música ganha caminhos independentes depois que a personagem principal, vivida por uma ótima Alessandra Negrini, volta a Copacabana e conhece os dois principais coadjuvantes do filme. O divórcio entre a obra de Chico e o longa de Karim prejudica um pouco a experiência com o filme porque a própria natureza do projeto cria expectativas específicas no espectador. A meia hora final de O Abismo Prateado enfraquece o corpo machucado que o longa constrói aos poucos. As feridas começam a cicatrizar, mas sem que o processo de cura da protagonista pareça se consumar como um todo.

O Abismo Prateado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[O Abismo Prateado, Karim Aïnouz, 2011]

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