Fila para a sessão de O Balconista 2, pouco antes da 20h. Como cheguei em cima do horário da sessão, tive que garantir minha junk food para não desmaiar dentro do cinema. Lanche na mão, foi então que ouvi o seguinte diálogo:

– Você já viu o novo desenho do Quarteto?, perguntava uma cópia fiel o Hurley, de Lost, para seus amigos Jay e Silent Bob – ou quase isso.
– Não, resposta de ambos.
– Passa no canal tal… (momento de reflexão) Putz, cara, bem que poderia ter Fanta Uva, né?, indagou Hurley.
– Nunca vi Fanta Uva em máquina, respondeu Jay (talvez tenha sido Silent Bon, eu estava de costas).
– Eu já vi – revelou o terceiro – mas não sei onde… nem quando…

Nerdice, comida trash, o clima estava perfeito para me divertir com o novo filme de Kevin Smith, mas não foi bem isso o que aconteceu. Em 1994, quando o longa original estreou, o cenário era propício ao gosto do cineasta: época de louvação ao pop, às citações ao cinema, às referências à música, época de Quentin Tarantino e Pulp Fiction.

Nerd e cool eram palavras bem próximas naquele tempo. Era divertido perceber as brincadeiras, ver coisas de que eu gostava citadas de forma ‘inteligente’, descontraída. E a idéia dos personagens Jay e Silent Bob eram uma piada muito boa. Dava até para rir quando os diálogos eram apenas grosseiros, racistas ou escatológicos. Kevin Smith era a promessa de um cinema simples, leve e espertinho.

Mas aí o tempo passou…

Citações ao mundo pop viraram obrigatórias no cinema jovem. De tão obrigatórias, ficaram batidas e, exceto em raríssimos casos, chatas. A metalinguagem – nerds falando de nerds – saiu de moda. Surgiram o freks e o geeks, bem mais densos e interessantes (quer dizer…). Kevin Smith, que também passeou pelos quadrinhos do Homem-Aranha, Demolidor e do Arqueiro Verde, continuou fazendo filmes. Em 1997, atingiu seu ápice criativo no cinema, com um filme mais maduro, Procura-se Amy. Depois, voltou para seu habitat.

O Balconista estrelinhaestrelinhaestrelinha (1994)
Barrados no Shopping estrelinhaestrelinhaestrelinha (1995)
Procura-se Amy estrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinha (1997)
Dogma estrelinha (1999)
O Império do Besteirol Contra-Ataca Bolinha (2001)
Menina dos Olhos (não vi – fiz mal?, 2004)

A sensação, vendo O Balconista 2, hoje, é que: se ele tivesse sido feito há treze anos, seria um bom filme (mas já tinha o primeiro, né?). Se ele tivesse diálogos menos escatológicos ou maneirasse na quantidade de sexo verbal, ele seria menos adolescente, menos igual a tudo o que ele já fez (talvez eu esteja velho ou seja moralista, mas aquele papo de masturbação, de eat pussy, de anus-mouth, de boquete, de zoofilia me pareceu um pouco excessivo).

E se Jay e Silent Bob não tivessem aparecido tanto ao longo desse tempo todo, seria mais legal reconhecê-los no filme. E se houvesse textos melhores para as pontas de Ben Affleck e Jason Lee, eu teria rido mais. E se todos os atores fossem tão bons quanto o excelente novato Trevor Fehrman, o nerd superior, o filme cresceria bastante.

Para não dizer que não gostei de nada, há um ótimo diálogo sobre O Senhor dos Anéis x Star Wars (exemplo da exaltação à nerdice que deu certo), uma Rosario Dawson adorável e um clima de nostalgia até bonito principalmente no plano final. Pena que é só.

O Balconista 2 EstrelinhaEstrelinha
[Clerks II, Kevin Smith, 2006]

Comentários

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8 comentários sobre “O Balconista 2”

  1. Chico, me corrija se eu estiver errado, mas é nesse filme aí que dois guris fãs de Senhor dos Anéis são destruídos numa locadora, não é? Nem vi, mas já gosto.

    Quer dizer, não gosto. Eu vi tudo isso que falou já depois, e ter referências pop, ser cool, nos filmes já era chato antes que eu chegasse a Kevin Smith. Aliás, talvez por isso, meu filme preferido de Tarantino seja o lindo Jackie Brown, humano, delicado, menos orgulhoso de bagagem cultural. abs

  2. Pois é, amigo Chico, O Balconista 1 é muito legal, mas o 2, como a maioria das sequências, deixou a desejar. Adorei sua análise de o porquê o filme 2 não é hype. Muito boa visão.
    De todos do Kevin, meu preferido é, sem dúvida, Chasing Amy.
    Grande abraço.

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