O Homem de Aço

Christopher Nolan, herói ou vilão? Herói por ter reconstruído a franquia do Batman nos cinemas, provado que os filmes de super-heróis podem fazer muito dinheiro e alimentado a possibilidade de renascer outros personagens da DC Comics nas telas, inclusive juntos. Vilão por ter estabelecido um padrão questionável para os próximos longas baseados em heróis da editora: no universo de Nolan, tudo precisa ser grandioso, desde as perseguições de rua até os dramas morais, tudo tem que acontecer em larga escala.

O Homem de Aço, que ninguém se engane, é um filme de Christopher Nolan. É ele o autor do argumento ao lado de David Goyer – que assinou o roteiro deste longa e de todos os Batmans que o cineasta dirigiu. Foi Nolan quem produziu o filme e provavelmente quem estabeleceu a escala intergalática em que o filme mora. A grandiosidade convive com a necessidade a tentativa de transformar o Superman num personagem possível, de trazê-lo para o mundo real, o que é bastante louvável.

A natureza e os poderes sobre-humanos do herói sempre foram obstáculos para transformá-lo num protagonista realista e o passado de Kal-El no cinema, embora haja muitos acertos nos filmes de Richard Donner e Richard Lester, ajudaram a afastar o personagem do ser humano comum, tanto com seu tom fabular quanto com sua inocência. A grande questão em O Homem de Aço é justamente essa: fazer do herói um herói “de verdade”, no qual a plateia de hoje, acostumada a filmes de ação mais críveis, efeitos especiais mais sóbrios e menos espetaculares e a personagens menos unilaterais – o que o Superman de Christopher Reeve sempre foi – possa acreditar.

O grande senão do filme de Nolan – aliás, de Zack Snyder, respeitando os princípios estabelecidos por Nolan – é que o tom sempre é de excesso, seja de seriedade, seja de magnitude. Existe um esforço reconhecido para aumentar a complexidade do herói, ressaltando suas particularidades, apostando em sua condição de pária. Esse conceito, que vem sendo alimentado nos quadrinhos há quase duas décadas, ajuda a credibilizar o personagem, mas a solução dos autores para dar substância a esse drama é transformar o herói no protagonista de uma tragédia grega, desde sua relação com Zod até os grandes dramas que vive com sua família terráquea.

O Homem de Aço

Michael Shannon se utiliza dessa base do excesso para desfilar todos seus trejeitos e afetações com Zod. E impressionantemente funciona (na mesma medida que o anabolizado Krypton medieval-futurista funciona). Aliás, o elenco todo encontra seu caminho, com destaque principal para Kevin Costner, quase sempre excelente e dono de uma das cenas mais emocionantes (e que atende ao apelo trágico do filme) como Jonathan Kent. Diane Lane está correta, embora pareça envelhecida demais pela maquiagem, e Laurence Fishburne, apesar de estar bem, parece ter sido escalado apenas para que o filme tivesse um efeito Nick Fury como nos longas da Marvel.

Seguindo a lógica do excesso, Amy Adams, que parece realmente ter se inspirado em Margot Kidder, aparece em quase todas as cenas desde que sua Lois Lane surge nas telas. Em alguns momentos, o filme faz às vezaes de versão longa de um episódio de Lois & Clark. Amy, sempre boa atriz, não faz feio, mas também não chama atenção. O Jor-El de Russell Crowe também é onipresente. É interessante como Snyder e Nolan tentaram se afastar dos Supermans de Donner e Lester, mas, por outras vias, terminaram reciclando várias ideias lançadas nos filmes deles.

No meio disso tudo, Henry Cavill é uma grata surpresa. O ator britânico de testa franzida quase que todo o tempo segura o personagem num misto de força e fragilidade, que retrata o herói pretendido pelos autores com precisão. Cavill não é um intérprete excelente, mas veste o Superman com tons mais realistas, se afasta da imagem inocente de Christopher Reeve e se coloca a serviço do filme. O problema é que, mesmo que o longa prepare o terreno para esse Superman humano, a necessidade de explodir a tela em efeitos visuais e criar cenas grandiosas resulta numa interminável e enfadonha sequência de destruição que evoca tanto os filmes do Batman de Nolan quanto os longas de Michael Bay.

O pecado de Nolan é mais uma vez, o excesso. As histórias dos heróis de quadrinhos são reconstruídas de tempos em tempos. É a dinâmica do meio. Para se atualizar para novas gerações e para reaproveitar aspectos de antigas aventuras, suas origens são constantemente reescritas, seus poderes, inimigos e vida civil adaptados para os novos tempos. Fazer isso com heróis com o Batman, um herói da vida real, é mais fácil. Basta colocá-lo em confronto com terroristas, os supervilões de nossa sociedade atual, para inseri-lo no mundo contemporâneo. Com um personagem como o Superman, as coisas se complicam porque, apesar de todo o bom mocismo, primeira associação que se faz ao herói, o kryptoniano é muito mais complexo do que qualquer outro: um semideus que carrega nos ombros, como o Atlas da mitologia grega espelhada em O Homem de Aço, o peso do mundo. Ou de dois mundos. Peso que está presente neste filme, mas por pouco não o esmaga com suas pretensões.

O Homem de Aço EstrelinhaEstrelinha½
[Man of Steel, Zack Snyder, 2013]

Comentários

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14 comentários sobre “O Homem de Aço”

  1. Acredito que se Nolan tivesse se responsabilizado pela direção o filme teria um maior rendimento. Pois observando a filmografia de Snyder nos mostra sua visão exagerada das coisas (300, Watchman), quero dizer, desde Batman Begins -ou até mesmo desde O Grande Truque- Nolan equilibra excepcionalmente a carga dramática que imprimi aos grandiosos efeitos visuais que “realiza”. Devemos esperar mais do mesmo na reunião de Batman com o Homem de Aço em 2015, com direção do megalomaníaco -e admirador de Michael Bay, por sinal- Zack Snyder.

  2. Eu pessoalmente gostei bastante – mesmo tendo ressalvas aqui e ali. Teve um sujeito que fez uma análise comparativa dos temas musicais principais do Williams e do Zimmer, agora não tenho o link, mas acho que ele acabou descrevendo o filme. O tema do williams era uma epifania, a chegada de um Deus entre os humanos, motivo para celebração. O de Zimmer é um tema que começa discreto, para um homem que emerge como um Deus dentre os humanos. E é essa a diferença crucial que diferencia os dois filmes se olharmos bem.

  3. O filme é maneiro, foda é o superman. Chato bagarai esse lance de ser o ápice da bondade, justiça e blá blá. Concordo com o post acima, a luta final é longa pacas e as cenas de destruição vão perdendo o impacto ao longo do filme. Não irei assitir novamente.

  4. SPOILERS:

    Achei a luta final dos dois um pouco longa demais. Mas te confesso que foi o único defeito que achei no filme. De resto, gostei de tudo. Achei a trilha poderosa. Os olhos lacrimejaram várias vezes, e chorei de soluçar com Kevin Costner (gostei demais dele no filme).
    Acho que as maiores responsabilidades no filme em matéria de personagens eram de Shannon e do Crowe, por causa de Brando e Stamp, que são inesquecíveis nos respectivos papéis. Gostei bastante do resultado.

  5. Acabei de ler o texto acima e confesso que não tinha grandes pretensões de vê-lo no cinema, mas mudei de ideia. Fiquei curiosa. Gostei muito desta abordagem crítica sobre o filme. E pretendo assisti-lo na tela sim e o mais brev possível.

  6. Sua resenha me deixou com mais vontade ainda de ver o filme. Gosto dos antigos, e seu elogio às atuações e crítica à grandiosidade excessiva me parecem ser uma combinação interessante.

  7. Chico, sei que esse não é o lugar para este comentário, mas como não conheço outro para faze-lo, aqui vai:
    Vc viu Espuma dos Dias? Tudo que li de crítica achei tão pobre… Adoraria ler um texto seu, são tantas metáforas, mas parece que quem escreveu sobre o filme está com medo de investiga-las, sempre mais fácil enaltecer a direção de arte e fotografia do filme (que são o máximo mesmo).

    Bjs

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