O Menino e o Mundo

Walt Disney construiu um império e um imaginário, ajudou a criar gerações de cinéfilos e muitas obras-primas, mas deixou um legado ingrato para a animação: para a maioria das pessoas, hoje, mais de oitenta anos depois de Mickey Mouse, animação – aliás, desenho animado – ainda é coisa de criança. Café com leite nas premiações de cinema, as animações são vistas como um gênero, se não “menor”, pelo menos “à parte”, em relação aos filmes considerados realmente sérios, que tratam de temas “importantes”, aqueles com atores de carne e osso.

A esse pessoal, a recomendação é assistir O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, um animação brasileira de traços extremamente simples, mas com uma ríquissima composição visual. O longa ultrapassa o conceito de público-alvo em sua viagem por algumas das questões mais sérias da história de nosso país. Do êxodo rural à superpopulação das grandes cidades, da exploração em grandes propriedades de terra à sina de uma geração fadada a reprisar o destino da geração anterior. Resumindo, o filme consegue fazer um diagnóstico do Brasil como o cinema brasileiro poucas vezes conseguiu.

E Alê Abreu consegue isso com um protagonista que não fala uma palavra sequer, cujos contornos frágeis lhes dão a aparência de rascunho, como se mostrassem sua pequenez em relação ao mundo que o cerca. O menino ganha direção pela própria movimentação da pintura na tela, com cada cenário se misturando ao seguinte, como se o filme fosse um organismo vivo que empurra o personagem principal num fluxo sem fim. A música, aliás, todo o conjunto sonoro do longa exerce um papel fundamental nesse movimento. Embora seja um filme melancólico, O Menino e o Mundo nunca para.

O mais curioso é que a maneira que o diretor encontra para trafegar por temas tão indóceis, essa liberdade narrativa que dá tanto frescor ao filme, não afastou o longa das crianças. Embora não seja um filme infantil, o olhar do protagonista diante do mundo tem a mesma curiosidade do que o de qualquer criança frente a algo muito maior do que ela possa compreender. Ao mesmo tempo, o menino que sai de casa em busca do pai, do passado, do futuro também somos nós, espectadores, dispostos a investigar, procurar, descobrir o mundo. A mudança gradativa do personagem, mas do que retratar a transformação nossa de cada dia, nos explica que o mundo infantil e o mundo adulto não são tão distantes assim.

O Menino e o Mundo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[O Menino e o Mundo, Alê Abreu, 2013]

Comentários

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8 comentários sobre “O Menino e o Mundo”

  1. As animações que assisti nos últimos anos tem conteúdo e narrativa muito superiores à imensa maioria dos filmes de temática adulta do mesmo período. Lembrar de Mary e Max, onde os personagens podem ser de massinha, mas as dores e as angústias de viver e as lágrimas vertidas são muito reais.

  2. Concordo 100% com o primeiro parágrafo, assim q vi o filme tentei lembrar de memória qtos desenhos focados no público adulto eu tivera contato e encontrei mto poucos, tipo American Pop. Mas acho q em relação a encontrar o equilíbrio entre uma temática mais adulta e manter o interesse da criança o filme naufraga, não tem a empatia q surge como natural dos filmes do diretor japonês Myasaki, soa por mtas vezes solene , cerebral, em certos momentos me pareceu q trabalhava seu viés social no estilo de O Ano Passado em Marienbad, ousado, mas se de um lado a fluidez do desenho animado permite q essa opção agrade aos olhos, à criança confunde, e não falo apenas por minha filha pois ouvi outras comentarem na sessão q fui q não entendiam, não sabiam se era o pai ou o menino, enfim… Acho q onde O menino e o mundo encontra dificuldades é justamente em estabelecer um diálogo q respeite os dois públicos, adulto e infantil, não se trata de encarar a criança como menos inteligente, mas de trafegar com maior leveza sem tanta solenidade pelos temas complexos com faz o
    Myasaki .

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