Adrien Brody

Provocação, ousadia, atrito. Roman Polanski construiu sua carreira e ganhou respeito porque sua filmografia foge do lugar comum através de narrativas inovadoras e temáticas originais. É assim no místico e macabro O Bebê de Rosemary (68) ou em O Inquilino (76) ou no noir reciclado de Chinatown (74). Sua marca aparece até na comédia A Dança dos Vampiros (67).  Polanski revelou-se um grande cineasta que detém o dom de saber contar uma história que vai além.

O Pianista, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é um filme de Roman Polanski. Como em todos os seus outros filmes, o cineasta mostra que sabe contar uma história, mas aqui ele não vai além. Este é um filme sentimental, um filme do coração, uma obra que cativa pela sensibilidade. Polanski adapta um livro sobre como um judeu polonês escapa da morte durante a Segunda Guerra, história que muito se assemelha a sua. Mas faz isso da forma mais convencional que poderia. É um “grande filme”, sobretudo no sentido épico e grandioso que faz A Lista de Schindler (93), de Steven Spielberg, e Fugindo do Inferno (63), de John Sturges, serem grandes filmes.

Polanski dirige bem os atores, recria lindamente a Polônia dos anos 40 e conta uma bela história. Uma bela história que poderia ser contada por outro bom cineasta. Em A História Real (99), David Lynch abandona sua tradicional desconstrução narrativa e conta uma história simples de uma forma simples. Mas o road movie guarda uma semelhança gigantesca em relação aos outros filmes de Lynch. Nele, os personagens estão tão à margem de tudo quanto em qualquer outro longa-metragem do cineasta. Não é o caso de O Pianista.

Talvez Roman Polanski tenha escolhido o projeto porque seria uma oportunidade de olhar para trás. Para seu próprio passado. Talvez porque ache importante denunciar os desmandos nazistas mais uma vez. Talvez simplesmente porque achou que a história era boa e merecia ser contada no cinema. Talvez porque o cineasta já tenha 70 anos e acredite que chegou a hora de parar de inovar e fazer o que muitos podem enxergar como um filme sério. Pessoas como os membros da Academia, que deram três dos principais Oscars de 2003. Prêmio que Polanski nunca havia ganho e que ficou cada vez mais longe quando o cineasta foi convidado a se retirar dos EUA depois de um escândalo sexual com uma menina de 13 anos.

Em O Pianista, o diretor marginal vira cineasta clássico e abraça a grandiosidade. Não é um filme ruim, muito pelo contrário. É um filme bom, mas não parece um filme de Roman Polanski. Isso é ruim? Não necessariamente.

O Pianista EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Pianist, 2002, Roman Polanski]

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0 thoughts on “O Pianista”

  1. A obra de Polanski não tem uma cara muito definida, em seus últimos filmes, e “O Pianista” é sem dúvida o melhor deles. A história é ótima, o filme bem contado, bem interpretado, envolvente. Consagrou Adrien Brody, na verdade, mas Brody tem uma cara tão peculiar que só tem feito prejudicar outros filmes em que teve papéis importantes. Ele jamais poderia passar por um homem comum. É olhar para ele e ver o eterno “pianista” de Polanski.

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