O Que Se Move

O silêncio e a música são elementos essenciais para a construção da narrativa de O Que Se Move, que fez uma bela carreira em festivais de cinema no ano passado. É o silêncio que pontua as histórias trágicas selecionadas pelo diretor paulistano Caetano Gotardo a partir de acontecimentos reais relatados em notícias de jornais. É a música, ou mais especificamente a melodia, que resolve esses três pequenos contos sobre mães e filhos. A combinação de silêncio e música se transforma na arquitetura de longa.

Apesar da unidade temática, os três episódios são bem delimitados e funcionam isoladamente. Nas duas primeiras histórias, o cineasta, que assina seu primeiro longa-metragem, desenvolve as tramas com um ritmo documental, reservando um generoso espaço para o casual e compondo um retrato íntimo de cada família. Os grandes eventos em cada história são reservados para os minutos finais, golpeando o espectador, embalado até então pelo movimento narcotizado dos personagens.

Gotardo é particularmente feliz no roteiro do filme, que registra em detalhes as banalidades cotidianas que humanizam os protagonistas. Sua falha – que também pode ser uma opção de linguagem – talvez esteja na direção de atores, cujo timing parece contrastar com a naturalidade que a condução da história pediria, o que cria um certo conflito de intenções. Alguns atores parecem recitar seus textos nos diálogos, o que só termina se justificando no formato escolhido para o desfecho dos episódios.

Esta solução encontrada para encerrar cada narrativa, o grande achado do diretor, o principal diferencial do filme, tem duas funções distintas: além de criar um laço formal entre as três histórias, definindo uma linguagem para O Que Se Move, trata de levar as tramas, reflexões poderosas sobre a ausência, para um estado onde as três protagonistas flutuam sobre a realidade, longe das tragédias que transformaram suas vidas. É com a melodia que Gotardo as livra do vazio da perda, exorcizando suas dores.

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[O Que Se Move, Caetano Gotardo, 2012]

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