Oscar 2014: a ditadura da história real

Oscar 2014

Somos reféns da ditadura da vida real. No cinema, como em vários aspectos da vida, estamos condenados a acreditar que alguns filmes sejam marcos históricos simplesmente porque estão ligados a personagens que existiram de verdade, sobretudo quando a matéria-prima destes filmes é a denúncia. O maior problema dessa clausura que a “história real” nos impõe – como se o cinema precisasse ter um compromisso com o documento de uma época, como se um filme que têm personagens reais fosse mais importante do que navega pelas águas da ficção – termina sendo a celebração de obras funcionais.

12 Anos de Escravidão é exatamente isso: um filme funcional, que vem preencher uma lacuna que o cinema americano deixou aberta por mais de um século. Simplesmente não existem filmes realmente relevantes sobre a escravatura. Precisou um inglês cruzar o Atlântico para contar a história de um homem negro livre que foi raptado para ser transformado em escravo. Embora pareça ser um trabalho honesto, o filme de Steve McQueen é um novelão melodramático, esquemático e convencional, de uma dramaturgia televisiva que trabalha com clímaxes e se apoia no fato de que conta uma perversa “história real”.

Sua vitória como melhor filme do ano era prevista, assim como os prêmios pelo roteiro adaptado e pela interpretação de Lupita Nyong’o, correta, mas que se apóia totalmente num modelo de “heroína da vida real” que não traz muita novidade. Foram os três únicos prêmios do filme, de um total de nove indicações, o que indica que, ao contrário de anos anteriores, a Academia já não julga mais necessário criar um pacote de estatuetas para justificar a escolha na categoria principal.

A questão que fica é: o que realmente tocou o americano em relação a 12 Anos de Escravidão? Ele realmente viu um grande filme ali ou ficou abalado com a barbárie que seu povo cometeu e sofreu simplesmente pelo fato que aquilo, ao contrário das novelas brasileiras, nunca havia sido mostrado pelo cinema de Hollywood? Mais parece que o ineditismo da temática, somado ao tratamento de filme de superação e aliado a técnicos e elenco de respeito ajudaram a forjar uma grande obra onde se tem apenas um filme que cumpre sua função.

Gravidade, como previsto, foi o grande vencedor da noite, pelo menos no número de prêmios. Ganhou sete Oscars nos quesitos em que era favorito incontestável (direção, fotografia, efeitos visuais, mixagem e edição de som) e nas categorias em que era favorito moderado (montagem e trilha sonora). Mas, nas cabeças dos membros da Academia, o pacote de prêmios não era suficiente para garantir ao longa de Alfonso Cuarón o título de melhor filme do ano.

O Oscar divide um filme em pedaços para premiar todo mundo (ou quase todo mundo) que faz parte dele. Para estes prêmios que valorizam os talentos individuais, contam os desempenhos de cada um, mas quando o assunto é o Oscar de melhor filme, a Academia procura um algo mais. E Gravidade, na opinião dos votantes, tem muitos talentos específicos, mas deixa a desejar no conjunto, talvez por ser uma ficção-científica, gênero tradicionalmente subvalorizado no quesito filme sério.

Mesmo que Gravidade seja um filme bem sério.

O Oscar já tentou muitas vezes, mas nunca foi tão previsível como na noite deste domingo. Na festa de entrega da 86ª edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ganharam os favoritos. Praticamente todos. Em todas as categorias. Se de um lado a cerimônia foi bem melhor do que a tragédia do ano passado, começando pela apresentação bem humorada e interativa de Ellen De Generes, de outro, faltou alguma surpresa para dar uma chacoalhada na plateia do Dolby Theater em Los Angeles.

A selfie que reuniu Meryl Streep, Angelina Jolie, Brad Pitt, Julia Roberts, Bradley Cooper e mais outros astros e estrelas de Hollywood foi o ponto alto de uma noite em que a Academia tentou oferecer pão e circo para se aproximar do público. Pão e pizza na verdade. A imagem de Harrison Ford pegando seu pedaço de pizza na plateia já é antológica. Os números musicais, geralmente um ponto bastante discutível da premiação, funcionaram muito bem, principalmente no quesito direção de TV. Com muitos mais cortes de câmeras, estas posicionadas em lugares mais “íntimos”, deram outra dinâmica às apresentações. Pharell Williams desceu do palco e colocou muita estrela pra dançar.

Se “Happy” não ganhou como melhor canção, a balada-chiclete “Let It Go”, a essência do que representa Frozen na tentativa de retomar uma tradição da Disney, levou o prêmio como se esperava, e o filme também abocanhou a estatueta de animação. O Grande Gatsby ficou com os prêmios de desenho de produção e figurinos, como diziam as apostas, terminando com as chances, que já eram poucas de Trapaça levar algum prêmio. O longa de David O. Russell, um placebo dos filmes de Martin Scorsese, perdeu em dez das dez categorias em que concorria. Entra para a história junto com um longa do mestre que “homenageia”, Gangues de Nova York.

O golpe fatal em Trapaça veio no quesito de roteiro original, com a merecidíssima vitória de Ela, único filme que realmente trouxe algo novo nesta temporada de prêmio. Clube de Compras Dallas foi o longa mais bem sucedido da noite. Produção pequena, ganhou dois Oscars importantes (ator e ator coadjuvante) e ainda se viu como um inesperado favorito em maquiagem, que também levou. Aposta de muita gente, A Um Passo do Estrelato foi eleito como melhor documentário, contra o mais famoso e mais celebrado O Ato de Matar, provocador título sobre o genocídio na Indonésia.

Como mandava o livro de receitas, Cate Blanchett recebeu o Oscar de melhor atriz por Blue Jasmine, passando incólume pelo escândalo envolvendo seu diretor Woody Allen. De uma maneira geral, todos os prêmios de atuação tiveram seu grau de justiça. Blanchett, Matthew McConaughey e Jared Leto eram os melhores na disputa e Lupita Nyong’o não tinha uma concorrente muito à frente, embora seria delicioso ver June Squibb ou Sally Hawkins ganhar. Pela primeira vez em muitos anos, não houve sequer uma surpresa no Oscar.

Talvez a maior delas tenha sido chamar Pink para cantar “Over the Rainbow” em mais uma celebração de aniversário de O Mágico de Oz. Cantou bem, mas pra quê? Anos atrás, Diana Ross já tinha feito melhor. A história de homenagear os heróis do cinema foi muito mal executada. Rendeu dois clipes, que é o que a Academia acha que é a melhor maneira para render suas homenagens, e parou por aí. O Oscar precisa mesmo ter tema? O tema não deveria ser o ano no cinema? Enfim, a festa bem que poderia mudar de mãos – para tentar chegar ainda mais perto do povo – mas se Ellen se desdobrava para fazer um show popular, por outro lado, a Academia recorria a uma lógica bem manjada para escolher o melhor filme da noite. Maldita ditadura da história real!

Comentários

comentários

18 thoughts on “Oscar 2014: a ditadura da história real”

  1. Chico, ja da para fazer algumas apostas para o proximo ano ?Afinal vem aí os novos filmes de Paul Thomas Anderson, Terrence Malick, Bennet Miller, Wes Anderson, Darren Aronofsky, mais um scorsese e Mais um do Woody Allen.

  2. Chico concordo contigo no quesito melhor filme, também não vejo nenhuma novidade em “12 anos de escravidão”.

    Torci por Ela e por Cate Blanchet.
    E a metade da cerimônia que eu vi achei o mesmo de sempre…

    Abs

  3. Acho que “ditadura da história real” é um tremendo exagero (além de mal uso da palavra ditadura). De 2000 para cá somente três filmes inspirados em histórias reais ganharam o prêmio de melhor filme! E atuações inspiradas em personagens reais impressionam mais por que os atores, geralmente, se transformam completamente para “emular” uma figura que existiu. Tem um sentido se você pensar que a Academia valoriza interpretações mais histéricas e chocantes – vide “Trapaça”, que conseguiu quatro indicações para seu elenco na base do berro, mesmo que para personagens fictícios.

    1. Na minha opinião, as interpretações de personagens reais manifestam mais cacoetes do que talentos mesmo, exceto em raras exceções.

  4. Ok, o Oscar é isso mesmo, uma colisão de chavões, uma festa empedernida que tenta misturar água e azeite, ou melhor, arte e comércio; o que é impossível. Mas o crítico comete um equívoco ao dizer que Hollywwood nunca havia mostrado a escravidão. O que dizer do Spielberg e seu “A cor púrpura”? – ou será que Spielberg não é um representante legítimo da cidade das ilusões?

    1. “A Cor Púrpura” não é sobre a escravidão, em si, Ricardo, mas sobre racismo, preconceito. “Amistad”, sim, abordou o tema.

  5. um bom filme,um tema OBRIGATÓRIO e bem roteirizado; relativamente aos outros fimes ,que ótimo que levou o Oscar .

    Pena ,que o colunista sofre de depressão e não consegue escrever direito ,concatenar idéias ,etc.

    e alem de tudo ,o cacoete de achar que o que está escrito se torna uma verdade….

  6. Chico: Uma coisa… O que aconteceu no Oscar se repetiu em toda a temporada de prêmios. Então isso, não é (des)mérito em si. O que ficou bem claro para mim é que dois filmes marcaram o ano e ambos foram premiados pelo que tem de melhor.

    1. Mauricio, faz tempo que a temporada de prêmios, em vez de apenas influenciar o Oscar, reprisa seu “comportamento”, antecipa suas lógicas e maneira de entender o mundo. A maior prova disso foi a mudança radical que fizeram no Bafta nos últimos anos, deixando o prêmio quase zero inglês. Parece que querem deixar o filme mais relevante para “o Oscar” e não para o cinema inglês.

  7. Enfim, era de se esperar tudo isso que você mesmo comentou. Ainda cheguei á comentar em suas outras publicações que que Lupita (como sou leigo em cinema – acho que metado do filme se dele á ela) e o Jared ganhariam os prêmios. Fato que #12AnosDeEscravidão realmente comoveu pelo contesto em sí e pelas cenas mais acressivas de racismo e violência do filme. #ClubeDeComprasDallas acredito que foi que deu um re-make de #Filladephia mas o filme é ótimo em tantos outras coisas.

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