Perdidos em ParisO circuito comercial brasileiro reserva um grande, um enorme espaço para a cinematografia francesa e, numa falta de filtro quase que completa, dezenas de filmes com pouco ou nenhum peso autoral terminam ocupando as salas e as vagas para o que o público brasileiro entende como filme francês – e isso passa basicamente por longas estrelados por atores famosos da terra de Napoleão. Depardieus, Deneuves, Cotillards, Cassels e Binoches estão sempre à disposição do nosso espectador, por mais genéricos sejam os títulos que eles estrelem. Por isso, no meio de tantos mais-dos-mesmos, Perdidos em Paris é um bálsamo em cartaz.

O filme vem sendo vendido como o último de Emmanuelle Riva, atriz de Amor e Hiroshima Meu Amor, que morreu no início do ano, embora ela ainda tenha três longas inéditos. Mas Riva, graciosa no papel de uma velha bailarina desmemoriada, é apenas um detalhe dos bons num projeto encantador. O quarto dos atores-diretores-roteiristas Dominique Abel e Fiona Gordon, um casal também fora das telas. A dupla – ele, belga, e ela, australiana – trabalha em Paris e mistura influências de circo, teatro e dança em seus espetáculos e filmes, geralmente comédias em que eles mesmos interpretam personagens que levam seus nomes.

Em Perdidos em Paris, a impressão inicial é a de afetação, ainda que dentro de uma certa ingenuidade, mas em pouco tempo o espectador é conquistado pela suavidade com que o casal dá vida a seus personagens. Suas interpretações resgatam o burlesco, a mímica e fazem referência direta a Chaplin e Buster Keaton. Cada movimento é planejado com ênfase nos mínimos detalhes, brincando com a língua francesa, criando cenas realmente encantadoras como a da dança no barco-restaurante ou a do sonho coordenado. Os cenários e figurinos coloridos combinados à música delicada pontuam cada sequência como nos filmes de Jacques Tati. Ainda que não chegue ao refinamento do mestre, Abel e Gordon nos convencem fácil, fácil que moram no conto de fadas cheio de cores em que fazem seus filmes.

Perdidos em Paris EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Paris Pieds Nus, Dominique Abel e Fiona Gordon, 2016]

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *