Reis e Rainha

Reis e Rainha estreou no Brasil há cerca de quatro meses e apenas agora aporta nos cinemas baianos. A espera longa é das mais válidas porque o filme de Arnaud Desplechin é um dos melhores que ganharam as telas nos últimos tempos. Meu primeiro contato com ele foi no último dia da repescagem da Mostra de Cinema de São Paulo, no início de novembro passado. Já haviam falado bastante bem do longa, mas eu juro que não esperava tanto.

O filme me abduziu desde a primeira cena, quando o clássico Moon River, de Henry Mancini, embala a chegada de Nora ao trabalho. A canção foi escrita para um filme feito há 45 anos: Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards, estrelado pela maravilhosa Audrey Hepburn. Com o clássico de Edwards, Reis e Rainha guarda uma semelhança: a melancolia que envolve as personagens, que se movem quase num tom de tragicomédia. E talvez mais outra: o fato de que essa característica não constrói filmes necessariamente tristes, mas imensamente ricos.

A atriz Emmanuelle Devos, ainda que bastante diferente de Audrey, é igualmente maravilhosa, tão encantadora quanto perversa. O tom único que ela adota para sua Nora abarca e explica as muitas qualidades e os grandes senões de sua personagem. A magnífica composição de Nora é um reflexo da magnífica composição do filme. Ismael ganhou um intérprete tão dedicado quanto Nora. O desempenho de Matthieu Amalric é um dos mais difíceis e bem-sucedidos que eu tive o prazer de ver nos últimos anos. Uma dupla de atores deslumbrante.

A cada personagem é imposto uma sucessão quase infindável de nuances, que é impossível classificá-los, rotulá-los. Todos, absolutamente todos, são interessantes, ricos, multifacetados. Há coadjuvantes menoráveis, como a médica quase impaciente, o advogado chapadão (Maurice Garrel, num timing perfeito) e a interna suicida (Magalie Woch, en-can-ta-do-ra). E o filme sabe se alternar entre momentos destruidores, como a carta do pai de Nora (seqüência filmada com tom de filme de terror), e o assalto à loja do pai de Ismael (uma cena de ação que parece ter sido escrita por Woody Allen).

Arnaud Desplechin usa e abusa da manipulação de tempo e espaço. Apresenta seus dois protagonistas, Nora e Ismael, paralelamente e, aos poucos, revela suas histórias e a ligação que existe entre eles. Constrói a narrativa quebrando as cenas no meio, edita diálogos apenas para dar movimento a eles. Cada corte abre uma possibilidade, mesmo que a câmera esteja na mesma posição de antes e apenas os corpos tenham se movido. O que a estrutura do longa de Desplechin tem de complexa, tem de inteligente. O filme se costura a partir da desconstrução de si mesmo. Eu pessoalmente fiquei impressionado em como Desplechin é hábil nesta tarefa nada banal: estabelecer a partir da negação.

O roteiro e a montagem são articuladíssimos com o desenvolvimento das personagens, interesse principal do filme. Poucas vezes eu vi um mergulho como o que o diretor promove nos cotidianos, nas almas de Nora e Ismael. A cena no Museu do Homem, onde Ismael explica para o pequeno Elias porque não pode ficar com ele é umas daquelas que rapidamente encontram um espaço no seu coração. Onde a neurose se esconde atrás da responsabilidade, onde ser pai é decidir se afastar.

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[Rois et Reigne, Arnaud Desplechin, 2004]

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