Rio Congelado

O cinema independente norte-americano criou uma série de regras que viraram maneirismos e clichês. Nos últimos anos, a produção indie parecia tão interessado em se diferenciar pela esquisitice que parecia impossível vislumbrar um futuro para novos cineastas. O filme de estréia de Courtney Hunt me fez mudar de idéia, embora tudo levasse a crer no contrário. Rio Congelado se passa na fronteira gelada entre EUA e Canadá, aborda a situação indígena, a imigração ilegal e ainda é protagonizado por uma mulher abandonada pelo marido com duas crianças. Tinha tudo para ser um daqueles filmes metidos a significativos, chatos e óbvios. Mas a história é bem diferente.

Apesar da inexperiência como diretora e roteirista, Hunt acerta no tom que resolve adotar para tocar o filme. A velocidade de Rio Congelado é bem próxima da velocidade da vida real. As coisas acontecem como no dia-a-dia, sem aquele mecanismo típico do cinema de promover estalos para registrar o início de processos. As coisas fluem por aqui. Mas Hunt tanto se afasta bastante de uma visão simplista do cotidiano do interior norte-americano quanto consegue tornar os dramas da protagonista, à primeira vista desinteressantes (como evitar que um TV alugada seja devolvida), em desafios reais para a personagem e o espectador.

Apesar do trabalho da cineasta, o filme não seria metade sem a presença magnífica de Melissa Leo, a melhor entre as cinco candidatas ao Oscar, que impõe uma força impressionante à personagem, mas evita maneirismos buscando refúgio numa naturalidade extrema. A grande atriz, com 25 anos de carreira, já havia provado seu talento em Três Enterros. Há pelo menos mais dois destaques no elenco: Misty Upham, que faz o contraponto de Melissa, dribla a caricatura e entrega um papel triste e solitária. Já o moleque Charlie McDermott, que faz o filho mais velho da protagonista, também é excelente. O trio sabe criar personagens cheios de arestas, inclassificáveis. Os atores combinados ao texto, que sempre surpreende sem a necessidade de choque, mostram que Courtney Hunt tem muito futuro.

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[Frozen River, Courtney Hunt, 2008]

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