George Clooney, Alexander Siddig, Matt Damon, William Hurt
Eu geralmente me sentia meio burro quando saía de um filme como Syriana, cuja dezena de micro-histórias têm tantos meandros, ora conspiratórios, ora jurídicos, ora sei-lá-o-quê, que eu nunca consigo entender tudo plenamente. Por isso, já faz algum tempo eu decidi que não teria mais vergonha de olhar para um filme deste tipo como um todo, mesmo que tenha deixado um ou outro detalhe escapar. E Syriana, a segunda experiência de Stephen Gaghan na direção, é um bom filme, embora geralmente queira ser bem mais do que isso.

Gaghan, que por tudo o que foi divulgado na imprensa, teve bastante dificuldades para realizar o filme, que tem por objetivo ser uma visão multilateral do funcionamento da indústria do petróleo, que o subtítulo brasileiro deixa, como de praxe, tão obviamente explícito. Pois bem, enquanto retrato da complicada questão, que, bem além do petróleo, envolve política, religião e cultura, Syriana é um exercício bastante satisfatório. Quase todas as histórias são bem apresentadas e resolvidas. O mosaico pode não ter tanta profundidade, mas dispara para todos os lados e geralmente acerta em algum lugar bem parecido com um alvo.

O que mais se pode louvar no filme é como ele não tenta seguir a fórmula de um thriller político, com uma historieta central que vai prender a atenção do espectador até o final. Não há um assassinato a evitar, um culpado a prender, uma notícia para ser levada aos jornais. Não é um Todos os Homens do Presidente ou um A Conversação, dois belos filmes (o último um excelente filme). Syriana tem tantas personagens – e seus “episódios” são tão completamente importantes para alcançar o painel proposto por Gaghan – que o filme se aproxima mais de um Robert Altman, sobretudo porque não há exatamente esse eixo central.

O texto é bastante, digamos, engajado, mas passa ao largo de ser panfletário. Gaghan apresenta muito bem a história do garoto árabe que, aos poucos, se envolve numa luta religiosa que não é sua e assume um discurso que não é seu. Há momentos em que pincela tentar ser definitivo, como no discurso empostado sobre a corrupção e como ela é importante. O texto é bem escrito, mas a vontade de dizer a “verdade” atrapalha um pouco seu intento.

A história menos bem resolvida é a de Matt Damon, justamente a mais fácil de entender, a mais linear. Em determinado momento, fiquei questionando o porquê da personagem. Seria para que fosse possível aquela cena final? Ou seria para apresentar o príncipe de Alexander Siddig, de longe o melhor ator do filme, que bem que merecia mais espaço. Seu diálogo com Damon sobre o que ele pretende para seu país é uma das melhores cenas. E George Clooney, Oscar de coadjuvante, me surpreendeu. Em que bom ator ele se transformou. Aqui, renega toda sua “linha de representação”, despindo-se do quê sedutor para fazer um homem obcecado, sem um pingo de exagero.

Syriana – A Indústria do Petróleo
[Syriana, Stephen Gaghan, 2005]

Comentários

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13 thoughts on “Syriana”

  1. Não acho o Syriana exatamente ingênuo, também simplista, o que é diferente. Agora, a parte da formação do terrorista é de lascar de tão preguiçosa e protocolar.

  2. Chico, belas análises, embora algumas vezes contradiza explicitamente trechos de meus textos sobre os filmes, hehehe…

    Achei estranho você comparar “Syriana” a “Todos os Homens do Presidente” (ainda que numa negativa), já que a comparação seria quase inevitável com o outro filme, “Boa Noite e Boa Sorte” (embora ainda numa chave negativa, pois o filme de Clooney não busca aquele clima de mistério e tensão pra representar o trabalho dos jornalistas).

    A personagem de Matt Damon não me parece mal resolvida. Acho que ele serve para mostrar como alguém que acredita ter uma visão completa do negócio de petróleo (ele é analista e consultor) mas que só tem esse contato através de números e relatórios acaba caindo do cavalo quando “sai a campo”, por seu próprio preconceito (não enxergava o príncipe como um reformista) e inocência (achava que uma transformação daquele porte fosse possível, mesmo contrariando interesses americanos).

    E concordo com o Marcelo: “Boa Noite e Boa Sorte” merecia 4 estrelas (ao menos numa escala até 5).

  3. Valeu pela visita, Chico! Apareça sempre…

    “Boa Noite e Boa Sorte” merece a revisão, mesmo não sendo um filme de múltiplas camadas como “Syriana” ou “2046” (filme que mais revi este ano).

  4. Eu achei “Boa noite, e boa sorte” irregular. Um filme meio arrastado, geralmente maniqueísta -e isso, para mim, é um trunfo da narrativa, mas planifica o que há de documental. Sobre a fotografia, achei ok. Me parece que todo filme em P&B hoje merece destaque por isso, mas há mais do que eximir cores e equilibrar (ou estourar) contrastes, né?
    Palmas para o protagonista e para Diane Reeves, fenomenal como sempre.
    Quero ver “Syriana”.

  5. Estou bem de acordo com seu texto, mas acho “Good Night…” um filme muito superior. O que me incomodou em “Syriana” foi justamente a ingenuidade, mas é claro que a tentativa é louvável. Também acho que honestidade é um dos conceitos-chave a ser aplicado em obras de arte.

  6. “Syriana” é bom, mas um pouco confuso…vou ter que rever o filme para entendê-lo melhor, mas adorei a interpretação de Clooney e fiquei sensibilizado com o problema que ele obteve na médula depois da cena da tortura. Ainda assim, prefiro “Boa Noite”, o melhor da safra do oscar até agora! Digo isso, porque o soberbo e melhor filme de Woody Allen, “Ponto Final” estréia semana que vêm…

  7. Eu acho que fotografia do Robert Elswit não é apenas não ter cor e estourar contrastes. Há um belo trabalho de luz e de criação de enquadramentos. Você achou o filme arrastado? Eu achei justamente o contrário, curto e polpudo (ou seja, parece que se disse muito em pouco tempo).

    Pretendo revê-lo. Estes últimos dois meses têm sido especialmente complicados para mim.

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