Tabu

Tabu é dividido em dois. É simples e é complexo. Um filme em que cabe um universo inteiro. É sobre a história de duas pessoas e sobre a história do mundo. Sobre o presente e sobre o passado. Sobre a memória e seus vestígios. Sobre cinema clássico e cinema contemporâneo. Democracia e colonização. Nostalgia e pensamento crítico. O mais novo desafio de Miguel Gomes desperta as mais variadas leituras, versa sobre os temas mais diferentes, tem significados demais para que todos caibam num só texto. Tabu segue por todos os caminhos. Poderia se perder, mas se encontra na maneira despretensiosa com que lida com suas pretensões.

O cineasta português estrutura sua obra-prima sobre duplos. Ele mesmo define que as duas partes do filme são a ressaca e a bebedeira, nessa ordem. Na tela, o longa se divide em “paraíso perdido” e “paraíso”, o que reafirma a analogia usada pelo diretor para explicar a linha temporal do filme, que começa no presente, na velhice, e volta para a juventude da protagonista. Esse formato também faz referência direta a uma das maiores influências do diretor, um filme homônimo ao seu, que F.W. Murnau e Robert J. Flaherty assinaram em 1931. Os dois atos do Tabu clássico tinham os títulos das duas partes do longa de Miguel Gomes, mas a ordem era inversa.

O Tabu de Murnau era um filme mudo feito já na era do som. O Tabu de Miguel Gomes, quase 80 anos depois, resgata o mesmo silêncio para seu segundo e maior capítulo. O primeiro filme era estrelado por um casal de nativos polinésios que resolve enfrentar o mundo para permanecer junto. É sobre a perda da inocência. As paisagens idílicas do Taiti agora abrigam invasores ocidentais. O segundo volta a uma África memorial, onde os colonizadores portugueses estendem seu império. É uma África de caricatura, herdada de filmes hollywoodianos clássicos. É sobre uma inocência recuperada. Os dois filmes são opostos complementares.

Aurora é a personagem principal do Tabu de Miguel Gomes. Mas só na segunda parte do filme. No primeiro ato, a velha Aurora, interpretação soberba de Laura Soveral, é apenas uma coadjuvante na história da vizinha, Pilar, a igualmente ótima Teresa Madruga. É como se Gomes dissesse que o tempo vive a eleger novos protagonistas, e como se, apesar de refletir sobre o hoje, o diretor defendesse o passado – pelo menos um passado saudoso, o que guardamos na memória -, como a época em que a história nos escolheu como personagens principais. Aurora, no que pode ser mais um belo exemplo da nostalgia de Gomes, é o título do filme mais famoso de Murnau.

Miguel Gomes é um um diretor que tem consciência de seu tempo. Para ele, não há contradição em fazer um cinema contemporâneo, que ele mesmo chama de “um cinema-dúvida”, mas que pode conviver com a grande narrativa, com a memória de um tempo que já se foi, estilizado, que se vende pelo exótico, onde jacarés e homens fazem parte do mesmo mundo. A experimentação do cineasta, no entanto, contrasta a maneira simples com que ele conduz o filme. Tabu é sobre “o tempo e a memória”, e com a liberdade que estes pontos de partida dão, nele cabe um arsenal de referências poéticas tanto às conversas que inspiraram Gomes a criar os personagens quanto à própria origem do cinema.

Tabu

P.S.: entrevistei o Miguel Gomes durante a Mostra de Cinema de São Paulo. Leia aqui.

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[Tabu, Miguel Gomes, 2012]

Comentários

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3 thoughts on “Tabu”

  1. Assisti ontem na sessão das 19:50 no Shopping Frei Caneca e tive uma experiência única e há tempos algo não me fazia tão bem. As cenas de conversas “mudas” com a música literalmente me hipnotizaram e de forma análoga à uma nova substância química me levaram a lugares desconhecidos dos quais já sinto saudade.

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