George A. Romero

Um bando de excluídos. Um grupo de marginais que vive na periferia de um mundo em que as verdades mudaram, em que as certezas se foram. Um conjunto de seres que carregam as as doloridas conseqüências de uma sina que não escolheram. Replicantes em busca do que lhes resta de humanidade, em busca de uma sobrevida. Não, eles não são os mais de 800 mil filiados ao Partido dos Trabalhadores, em meio ao inexplicável destino que esmagou toda aquela reserva de esperança, de pureza ideológica que o brasileiro guardava dentro de si, que fazia os jovens de 16 anos irem às urnas mesmo sem ter obrigação porque havia algo em que acreditar. E acreditar costumar ter sua importância.

Os excluídos, os marginais são zumbis. Homens, mulheres, crianças, executivos, papais noéis, palhaços que perderam a vida, mas não morreram. O motivo não existe ou não precisa existir. Eles querem apenas continuar. Os zumbis de George A. Romero ganham do pai algo bem próximo de uma consciência, com direito a memória e uma espécie de tentativa de organização social.  As tribos evoluem justamente pelo instinto de sobrevivência, pela busca por comida, seja ela carne humana, raízes ou feijão com arroz. É uma evolução, uma mutação secundária ou terciária em relação aos primeiros três filmes do gênero assinados pelo criador do gênero. E entre as muitas imagens marcantes de Terra dos Mortos, uma especial, tocante, em que o líder zumbi experimenta a memória.

Romero, que retorna ao universo dos zumbis quase duas décadas depois,  retira a carga da vilania de suas crias. Este posto é entregue a outros e, mesmo assim, nunca fica tão fácil assim caracterizá-los apenas como vilões. O diretor humaniza como pode as personagens, coloca-os sob uma inédita perspectiva, questiona com que lado está a verdade. Como um papai dedicado, ele dá aos filhos um fim, uma direção, ainda que nebulosos e tortuosos. Dá a chance da escolha. Desta vez, os zumbis são apenas mais uma parte do contexto, contexto que pode ter dezenas de leituras políticas, como todo mundo tem apontado, mas que tem nas entrelinhas um sentimento muito mais primário, o de querer mais, o de significar. Porque em determinado momento, a vida (ou a morte) não é mais feita de fogos de artifício.

Quem acha que este filme é apenas um filme de zumbis merece ser devorado por um deles.

Terra dos Mortos  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Land of the Dead, George A. Romero, 2005]

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