Um Lugar Qualquer

O vazio é parte fundamental do cotidiano de Johnny Marco. Astro do cinema de ação, o ator gasta o restante do seu tempo livre justamente tentando preenchê-lo. Entre mulheres, bebidas e bajulação, Johnny exerce o ato de ser solitário. Sofia Coppola está acostumada a personagens que não se encaixam, seja virgens suicidas, seja um ator americano no Japão, seja uma rainha à frente de seu tempo. Embora Encontros e Desencontros ainda seja seu filme mais bem dirigido, este parece ser o trabalho mais maduro da diretora. E o menos comercial também.

Um Lugar Qualquer é um filme de não-ação. Frustra quem espera começo-meio-e-fim e clímaxes como os de uma história com narrativa convencional. O longa ignora os grandes acontecimentos do dia-a-dia na vida do protagonista, aqueles tópicos de agenda, e se concentra no que se faz entre eles. Stephen Dorff, minimalista, quase apático, traduz bem o personagem.

A cineasta, assumindo uma voz masculina, conduz a clássica história de mudança de comportamento através da insinuação. A personagem de Elle Fanning, encantadora de uma forma completamente espontânea, surge para quebrar a rotina oca do pai, astro do cinema, sem grandes dramas ou encenações. Sua presença basta para caotizar o status quo. A sutileza está neste diferencial. Sofia dribla todos clichês dessa história e adota um tempo morto que desafia o espectador.

O naturalismo está por toda parte em Um Lugar Qualquer, um olhar documental sobre a vida de um ator: na fotografia em cores neutras, em cenas de pura observação, como a das dançarinas ou a da piscina, e nas interpretações simples, sem grandes movimentos performáticos. Embora o final possa parecer amarrado demais, a nostalgia éterea e carinhosa do filme prevalece. Sofia Coppola não oferece cartarses. Cabe ao espectador caçar motivos e identificações. Ou não.

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[Somewhere, Sofia Coppola, 2010]

Comentários

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3 thoughts on “Um Lugar Qualquer”

  1. É um filme bonito, esquematicamente poético, mas com muitos momentos AMO MUITO TUDO ISSO. Acho que há dois protagonista em Encontros e desencontros, um deles é um ator. E de um modo gerais, acho que Sofia tem personalidade, mas esse filme é mais do mesmo. Classe social privilegiada vivendo seu tédio (que vira crise existencial) em choque com o entorno que nao compreende (normalmente paises estrangeiros), somado a conflitos emocionais relacionados a família (pais repressores, novos casais, divorciados) etc. No fundo, mais do mesmo. Onde o por que de ser tao agraciada se nao por um sobrenome?

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