Vício Frenético

Remakes sempre são questionáveis, mas o anúncio de que um filme como este seria produzido parecia ainda mais bizarro: o alemão Werner Herzog assumiria a refilmagem de Vício Frenético, um dos melhores filmes de Abel Ferrara, e o caricato Nicolas Cage, que há séculos não nos apresenta uma interpretação razoável, viveria o papel que um dia foi de Harvey Keitel. O melhor papel de Keitel, diga-se. Mas o que se vê no cinema é de fazer cair o queixo. Além de não ser literalmente um remake (apenas as ideias centrais são reaproveitadas), Herzog encontra caminhos improváveis que transformam este filme numa viagem alucinógena completamente deliciosa.

Assim como no filme de Ferrara, aqui Nicolas Cage também vive um policial para quem o termo “dependente químico” nem faz cócegas na tentativa de adjetivá-lo. Eu, e provavelmente metade dos espectador razoavelmente exigentes de cinema, já havia desistido desse ator que vinha escolhendo papéis que só faziam ressaltar sua caretas. Em Vício Frenético, Cage encontra a interpretação de sua vida. E ele, perdoem-me pelo superlativo, está magistral, equilibrando o humor, que percorre toda a metragem do filme, e a seriedade. E faz isso usando todos seus maneirismos usuais.

Todas as soluções que Herzog encontra para todas as sub-tramas do novo longa são extraordinárias, inclusive as que passam pelas cenas – já antológicas – das viagens alucinógenas do protagonista. O diretor evitar colocar o personagem como herói ou vilão. Sua amoralidade não é celebrada, mas apresentada da maneira menos provável possível. Eva Green, Michael Shannon, Jennifer Coolidge, Fairuza Balk e Val Kilmer, todos em papéis minúsculos, servem como a escada perfeita para os devaneios desta obra-prima do personagem de Cage e do diretor de primeira que Herzog, de vez em quando, insiste em querer nos relembrar que é.

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[The Bad Lieutenant: Port of Call, New Orleans, Werner Herzog, 2009]

Comentários

comentários

14 thoughts on “Vício Frenético”

  1. Já havia uma certa expectatica da minha parte para com o filme, agora então depois das cinco estrelas ela só aumentou.
    Uma pergunta, o personagem de Nicolas Cage
    naõ é parecido com o que fes em “Despedida em Las Vegas” pelo qual ganhou seu segundo Oscar, sendo o primeiro como ator principal?
    Abraço.

  2. Gostei muito do Cage, ne tanto do filme…
    Algo nesse filme me lembro um om keanu Reeves, o último policial que ele fez, aff esqueci o nome. Mas, o de keanu eu gostei mais!

  3. Depois de ter feito Aguirre (que entra fácil no meu top 10)/ Kaspar / Fitzcarraldo, o Herzog pode fazer a besteira – e olha que ele já fez muitas – que for que ainda assim merecerá meu respeito eterno.

    É ótimo vê-lo voltar aos seus melhores dias!

  4. Herzog aparece como único sobrevivente dos cinemas novos, simplesmente admirável como suas direção (depois de dezenas de belíssimos longas) continua virtuosa.

    Exceção para algumas gruas preguiçosas, Herzog utiliza-se de Cage de maneira extremamente consciente, relembrando que a atuação nasce da junção ator/diretor.

    Eva Green?

  5. finalmente o nicolas cage axou o filme de sua vida…

    e como ele diz no making off do filme…

    “people will watch this and say: WHAT THE FUCK WAS THAT!?!”

  6. “Vício frenético”

    O original, de 1992, é um dos pesadelos tresloucados que fizeram os momentos altos da trajetória do junkie Abel Ferrara, com Harvey Keitel corajosamente exposto no papel do policial viciado que afunda durante uma investigação.
    A refilmagem de Werner Herzog é típica encomenda de estúdio, na qual o diretor recebeu funções apenas burocráticas, aclimatando-se nos EUA, onde passou a residir há pouco. Mas o alemão adicionou humor ao clima sombrio e desesperado de Ferrara, além de transportar a ação para a Nova Orleans pós-Katrina. Nicolas Cage imprime cinismo e simpatia a seu personagem, reforçando uma crítica às instituições policiais que a tragédia pessoal diluía.
    Não se trata, portanto, dessas nefastas refilmagens hollywoodianas, originadas no esgotamento criativo e na falta de escrúpulos. É outro filme, embora partindo das mesmas premissas. E Herzog, um dos maiores cineastas vivos, como já disse aqui, mesmo quando se dedica a garantir o leitinho das crianças, está quilômetros acima do padrão mediano dessa indústria movida a reciclagens.

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