Vocês Ainda Não Viram Nada

Vocês Ainda Não Viram Nada

A experiência cinematográfica do novo filme de Alain Resnais guarda grandes semelhanças com o que Eduardo Coutinho faz em Jogo de Cena. Os dois filmes colocam a representação – tanto enquanto performance quanto enquanto significação – no centro de suas tramas e no esqueleto de suas propostas de cinema. Mas se de um lado o longa do brasileiro mira na questão da identidade, no processo de tradução de um personagem, na simbiose entre criador e criatura, Vocês Ainda Não Viram Nada procura esgotar as possibilidades de reinterpretação de um texto. O texto no caso é a peça Eurídice, uma releitura do mito de Orfeu, um combinado de dois textos teatrais de Jean Anouilh, que na versão de Resnais foi escrita pelo dramaturgo fictício Antoine d’Anthac.

Elemento fundamental ao cinema de Resnais, o humor dá o tom da cena de abertura do filme em que vários telefonemas se sobrepõem, informando sobre a morte do dramaturgo. Quem recebe as ligações são atores reais, que interpretarão a si mesmos (e algo mais) no decorrer do longa. A cena funciona tanto para lançar a trama quanto para creditar o elenco, entre eles Michel Piccoli, Mathieu Amalric, Lambert Wilson e Anne Consigny. A mulher de Resnais, Sabine Azéma, e seu colaborador mais fiel, Pierre Arditi, que estrelaram, cada um, dez filmes do cineasta, muitas vezes como um casal, repetem o feito aqui. Diante de uma fartura de talentos, e o mais notável, de parceiros, o diretor se sente em casa para realizar seu experimento.

Os atores, já no modo interpretação, recebem um último pedido do amigo dramaturgo: assistir a um vídeo com a encenação de um jovem grupo de teatro para a obra de d’Anthac, cabendo decidir se eles devem ter a autorização para montá-la ou não. Uma proposta meio pobre, mas que abre as portas para que Resnais faça seu exercício de metalinguagem: enquanto o vídeo com a trupe fazendo uma versão “de rua” para o texto é projetado no meio da mansão do dramaturgo, os atores veteranos, que já interpretaram aqueles papéis, ocupam seus lugares em poltronas instaladas na sala. O cineasta transforma o ambiente num cenário de teatro, com poucos móveis e quase nenhuma decoração, palco perfeito para que os atores assistam, reconheçam e reinventem o texto.

À medida em que o filme acontece, o elenco vai se envolvendo com a história de Eurídice e Orfeu, a ponto de se confundir com ela, tanto no plano da memória quanto no da interpretação. A ideia parece ser partir da diferença, do cisma entre os modelos de representação, para fundir os veteranos e novatos numa espécie de mensagem sobre a universalidade do teatro. Para Resnais, o texto mais do que convida os atores para o “palco”, ele transforma esta atração em algo inerente à profissão de ator. A encenação está no vídeo do grupo mais jovem, nos atores que reprisam os textos dos personagens sentados nas poltronas e na materialização de suas interpretações em cenas em que o diretor abusa de cromaquis, ou seja do fake, da farsa, do teatro, para discorrer sobre representação. Embora o impacto não seja tão forte como o de Jogo de Cena, o novo filme de Resnais decreta o fim dos limites entre real e encenação.

Vocês Ainda Não Viram Nada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Vous N’avez Encore Rien Vu, Alain Resnais, 2012]

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