Estamos mal acostumados com o cinema de James Gray. Mal acostumados com a reinvenção que, hoje em dia, somente este diretor nova-iorquino sabe fazer do melodrama americano clássico. Mal acostumados com o lirismo seco que ele imprime a suas tramas e com o mergulho profundo na essência de seus personagens. Quando foi anunciado, Z – A Cidade Perdida parecia um passo a frente em seu cinema. A história do explorador britânico obcecado em encontrar uma lendária cidade perdida no meio da Amazônia tinha uma moldura diferente, mas, de certa forma, guardava elementos temáticos comuns com os de seus últimos filmes. Fugir de um mundo que já não mais o satisfaz dialoga tanto com o ensimesmamento do Leonard de Amantes quanto com a partida de Ewa para o Novo Mundo de Era Uma Vez em Nova York.

Mas, a grande questão – e o grande senão – em torno do novo longa de Gray é que, durante boa parte do filme, o diretor tem tantos compromissos histórico-cronológicos para retratar a trajetória circular de seu protagonista, que suas marcas, estilo e características terminam relegadas a um segundo plano. Um segundo plano que namora constantemente com a superfície, é verdade, e com alguns belos momentos de emersão, certamente – Gray ainda é Gray -, mas um segundo plano. A explicação pode estar no fato de que, depois de cinco roteiros originais, esta é a primeira vez que o diretor recorre a um material pré-existente como base de um filme seu. E a interrupção da parceria com Ric Menello, que coescreveu os dois trabalhos anteriores do cineasta, também parece ter tido um impacto neste resultado final. A cada vez que o rumo do coronel Fawcett se afasta da floresta, o trabalho de tradução do personagem parece recomeçar.

Z - A Cidade Perdida Assim como praticamente toda a obra de Gray, Z está bastante além do cinema que se produz hoje nos Estados Unidos. O cuidado com a iluminação e as cores, inspiradas por pinturas, é de se observar maravilhado. Mas, embora tenha tido um meticuloso trabalho de reconstituição de época – muito além da excelente composição visual, ele realmente transporta o espectador para o que era a vida durante a Primeira Guerra Mundial -, o cineasta parece não ter tido o tempo que realmente precisa para imprimir sua versão e sua defesa do protagonista. A intimidade do diretor com seu protagonista nunca chega aos pés do que se observa em trabalhos anteriores. Mas, se o esforçado Charlie Hunnam não é nenhum Joaquin Phoenix, parceiro de três filmes, ele não parece ser o único motivo para este longa não oferecer tantas camadas quanto o que Gray costuma entregar.

Somente na meia hora final, livre destas amarras históricas que engessavam seu trabalho, é que Gray surge realmente integral, disposto a recuperar o personagem perdido para o compromisso acadêmico e com a disposição necessária para emprestar à jornada do protagonista o tom mais íntimo e espiritual que pretende. Essa meia hora final é grandiosa, busca explicações quase religiosas para a devoção de Percy Fawcett e consegue, por um breve momento, invadir a alma do personagem. Mas a essa altura Hunnam já que tem que dividir as cenas com o ótimo, mas mal aproveitado Tom Holland, que interpreta o filho que herdou sua obsessão, mas cujo desenvolvimento enquanto personagem é truncado. Já não há mais tempo para fazer a floresta falar através de Fawcett, então, Gray faz o que é mais digno e encerra seu filme da maneira mais honesta possível. Fica a angústia de um filme que não aconteceu como poderia. Fica o conforto de que, com todos os problemas que teve, o Aguirre de James Gray ainda guarda muito mais cinema do que a maioria dos filmes por aí.

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[The Lost City of Z, James Gray, 2016]

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