Amantes Constantes

Philippe Garrel sempre foi um mito pra mim. Na época da faculdade, eu e uma amiga, os dois apaixonados e apaixonados por cinema, líamos um monte de coisa sobre seus hermetismos, sobre as sinopses absurdas de alguns de seus filmes e sempre ficamos na expectativa de ter acesso a algum filme dele. Virou lenda, chiste, brincadeira das nossas conversas sobre cinema, arte, vida em geral. Conversas que, de certa forma, parecem com as conversas que os jovens de Amantes Constantes, minha primeira visita a seu cinema, têm ao longo do filme. Ao mesmo tempo em que fazem política, falam sobre nada, sobre a vida.

Uma bela resposta ao estilizado Os Sonhadores (2003), com Bernardo Bertolucci recebendo a citação mais jocosa de sua vida numa cena hilária, e cooptando o protagonista do filme do italiano para si. Protagonista que o destino quis pregar a peça de ser o próprio filho de Garrel. Curioso como o filme trabalha duas idéias do maio de 68 ao mesmo tempo mescladas e divergentes: a vontade de mudança, a busca pela liberdade e a inércia pós-conflitos de rua, a vontade de transformar a expressão artística em modo de vida, sem saber muito como fazer isso. Uma coisa não anula ou minimiza a outra. Tudo é sincero. Tudo foi sincero.

Em meio a isso, surge o amor, que é não é mais aquele amor romântico para ela, mas é aquele amor romântico para ele. Ou não.

As incongruências das atitudes, o desacerto do passo das personagens dá uma consistência insólita ao filme de Garrel, uma aproximação com um estado de pureza de quem busca por caminhos que podem simplesmente não chegar, mas que continua tentando descobri-los, sem abdicar dos prazeres mais imediatos. Talvez para eles, assim para como para quem é tocado pelo filme de Garrel, a melhor resposta seja uma pergunta de um verso da música dos Kinks que embala uma das melhores cenas do filme:

This time tomorrow
What will we know?
Well we still be here
Watching an in-flight movie show?

Amantes Constantes EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Les Amants Réguliers, Philippe Garrel, 2005]

Comentários

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19 comentários sobre “Amantes Constantes”

  1. É uma provocação que reconhece que Bertolucci foi importante (em parte, o homenageia) e que ele pisou feio na bola ao fazer aquele tosco atestado de senilidade que é “Os Sonhadores”.

  2. É, eu tava nas duas. O problema é que não dá pra te reconhecer só com essa foto que vc usa, hehe. O Chabrol já vi e não to muito a fim de rever não, apesar de ter gostado bastante. Mas nem tava sabendo dessa cabine, vou ter que cobrar do pessoal da Mostra. Tem outras cabines programadas nesta semana? No mesmo cinema?

  3. Interessante: acho Amantes Constantes o melhor filme do ano até agora. Estarei na primeira sessão de Antes da Revolução durante a Mostra, mas acho Os Sonhadores um filme honestíssimo. Com elementos outros que o torna bem interessante… enfim, respeito a opinião de todo mundo, só que tb defendo o que gosto! É isso!

  4. Hmmmm, sinceramente não acho que é provocação.

    Chico, faltou mais uma estrelita, não?

    Um amigo meu me trouxe uma vez um folheto de uma retrospectiva do Garrel onde se lia “Venhar rever ou até mesmo conhecer a obra de um dos mais injustiçados nomes do cinema francês”, hehehhe.

  5. Acho que é uma provocação. Tem uma entrevista no blog do Filipe, o Anotações, em que o Garrel sutilmente revela sua antipatia pelo Sonhadores. Amantes é um belo filme, embora não tenha achado um clássico.

    Chico, vc já tá aqui em São Paulo?

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