Antônio Fagundes, Wagner Moura, Paloma Duarte

Carlos Diegues fez as pazes com o cinema. Seu último longa, Deus é Brasileiro, é um bom filme, coisa que há muito tempo não aparecia na filmografia do cineasta. Como comédia leve ou como obra que pretende discutir temas mais sérios (como o brasileiro), o filme funciona. E funciona por causa de uma espontaneidade de condução, que não faz do road movie tropical um filme meramente turístico, mas um filme comportamental, apoiado em surpreendentes interpretações.

A primeira delas, não há como negar, nem há essa intenção, é a de Wagner Moura, como o caloteiro generoso que vira parceiro do “Senhor”. O baiano, revelado no teatro e coadjuvante em Abril Despedaçado, toma o filme para si, com seu sotaque “verdadeiramente alagoano”, sua verve inegável para a comédia e sua cena final dramática, onde se revela um grande ator.

Antônio Fagundes livra-se de sua canastrice típica numa atuação simpática e sem excessos (o que poderia acontecer em larga escala quando se interpreta Deus). Paloma Duarte também está convincente e até Stepan Nercessian e Castrinho estão bem no filme.

Mas o grande trunfo de Deus é Brasileiro é mesmo o carinho visível com que Cacá Diegues trata seu filme. Carinho com a trilha, repleta de músicos alagoanos; carinho com a bela fotografia azulada de Affonso Beatto, que faz uma ode à margem esquerda do São Francisco; carinho em fazer um filme que promove seu retorno a Alagoas, sua terra natal. Minha terra natal.

Talvez eu tenha gostado de Deus é Brasileiro mais do que devesse. Porque lá eu visitei Piaçabuçu, revi Penedo, olhei pros rostos de Chico de Assis e Anilda Leão e passei o filme inteiro esperando a participação da deliciosa Ivana Iza. Talvez. Talvez não. Porque tem horas que a gente tem que largar mão da intelectualidade e abraçar o coração. As críticas falaram em falta de profundidade. Acho que Deus é Brasileiro se propõe ao que está na tela e isso já é muito bom. Fazer um grande mergulho sociológico não era o objetivo de Cacá Diegues. No fundo, no fundo, eu acho que ele só queria voltar pra casa.

Deus é Brasileiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Deus é Brasileiro, Carlos Diegues, 2003]

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *