Guardiões da Galáxia

Chegou o momento que todo mundo temia: a Marvel foi pro espaço. Depois de seis anos transportando e traduzindo seu complexo universo para o cinema, acertando em maior ou menor grau na transposição de alguns de seus principais heróis para as telas, a Casa de Ideias decidiu decolar voo, mirando lá no meio das mais distantes galáxias. A ousadia estava em abrir mão dos nomes mais conhecidos de seu casting interestelar (alguns estão sob as garras de outros megaestúdios; outros simplesmente não atenderiam aos objetivos do projeto Marvel nos cinemas). A aposta foi num grupo publicado esparsamente ao longo das últimas cinco décadas. Personagens cujas histórias pouca gente – ou quase ninguém – efetivamente leu. Até porque os integrantes deste grupo mudaram drasticamente neste período.

A surpresa de toda a crítica tem sido em como Guardiões da Galáxia funciona exemplarmente nas telas, misturando ação e humor numa dosagem certa, e ainda servindo de ponte para a próxima aventura da editora/estúdio, mas o improvável longa dirigido por James Gunn, um cineasta surgido nos porões do cinema trash, é mais do que um produto eficiente, é  um dos melhores filmes adaptados dos quadrinhos da Marvel. Um dos principais motivos para isto é justamente o que provavelmente deixará este longa fora das listas de melhores filmes baseados em quadrinhos nos próximos anos: a invisibilidade de seus personagens. Com protagonistas praticamente desconhecidos, com um grupo sem tradição, Gunn foi capaz de fazer um trabalho despretensioso, em que pode tomar liberdades sem se preocupar com fãs xiitas ou grandes obrigações mercadológicas.

É quase como se estivéssemos diante de uma ficção-científica absolutamente nova, que não nega sua natureza de blockbuster e transita com extrema facilidade entre os filmes do gênero feitos entre meados dos anos 70 e o começo da década seguinte. Plasticamente, o filme é bem arriscado também porque aposta num visual ultracolorido, que o diretor de fotografia, cenógrafos, figurinistas e principalmente maquiadores administram com uma invejável exatidão. A mistura de cores sempre parece estar no limite, mas tudo funciona muito bem e serve aos propósitos dos realizadores. Assumidamente leve, o roteiro de Guardiões da Galáxia oferece cenas de ação deliciosas (como a fuga da prisão espacial) na mesma medida em que cria momentos  extremamente sentimentais (quando Groot muda seu discurso pela primeira vez), sem nunca passar do ponto.

Os atores estão muito à vontade em seus papéis, o que ajuda bastante à engrenagem, com destaque para Chris Pratt e Zoe Saldana, intérpretes do Senhor das Estrelas e de Gamora, mas tanto Dave Bautista, que faz Drax, o Destruidor, quanto Michael Rooker, no papel de Yondu Udonta, têm performances deliciosas. Agora, se há um homem para saudar, este é Bradley Cooper, completamente entregue à amoralidade de Rocket Racoon, com dezenas de falas memoráveis. E Groot é o melhor personagem da vida de Vin Diesel. E sua melhor interpretação também. Todo eles parecem se divertir tanto no filme que dá pra entender porque atores como Glenn Close, Djimon Honsou e John C. Reilly aceitaram fazer papéis tão pequenos. Esta coloquialidade de Guardiões da Galáxia, sem grandes poderes e responsabilidades, mesmo em seus momentos mais arriscados deve aproximar muito o espectador.

James Gunn pontua a história do grupo de outsiders intergaláticos, reunido por acaso, com um humor caseiro que dialoga não apenas com o público que lê quadrinhos ou que consome ficção-científica, mas com um espectador interessado em dar boas risadas no cinema, que vai ser capaz de identificar uma história com começo, meio e fim, mesmo dentro de um projeto maior. Enquanto a DC transforma até seus heróis mais solares em personagens amargurados e carracundos achando que esse é o caminho para traduzi-los com dignidade para o cinema, a Marvel resolveu olhar para as estrelas com a curiosidade e o improviso de um garoto que ganhou sua primeira luneta para abrir um universo de possibilidades para seus personagens e espectadores.

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[Guardians of the Galaxy, James Gunn, 2014]

Comentários

comentários

3 thoughts on “Guardiões da Galáxia”

  1. Mas Chico, a trilogia do batman fez um enorme sucesso e entrou na historia
    com um tema sombrio e amargo e convenhamos que quando tentaram fazer um batman comico,aconteceu aquelas tragedias da decada de 90. Tentaram fazer um lanterna verde estilo marvel e o filme fracassou. A propria marvel que mais acerta que erra,errou feio com um thor 2 e o homem de ferro 3 que foi considerado ate pelos proprios fãs e critica uma derrapada do estudio.Ja capitão america 2 fez sucesso de critica e publico com um tema serio e de espionagem e teve ate comparações com batman cavaleiro das trevas.A diferença na verdade e que a marvel investe em dezenas de personagens e de 10 tentativas acerta 7,enquanto a dc investe em 3 e acerta em apenas um.Precisa da coragem da marvel e sair da aba do homem morcego.

  2. Gostei da sua avaliação e, aliás, gostei muito do filme. Também achei que “é um dos melhores filmes adaptados dos quadrinhos da Marvel”. Gostei da maquiagem — da trilha sonora, nem se fala. Os personagens tem uma empatia irresistível e as atuações foram também muito boas.

    Acho que o filme, seguramente despretensioso, acerta justo porque, ao assumidamente colocar-se assim, acaba transpondo o limite das expectativas. Quer dizer, acho que se pode dizer que o filme tem uma “lição” interessante sobre a amizade, que apesar de contada nesse ambiente leve, não deixa de ser menos impactante e comovente. O resultado foi um filme bem redondinho e, bem, nesse tempos de imensa esterilidade e falta de imaginação no campo dos blockbusters (todas as histórias mais bizarras possíveis já foram adaptadas pro cinema pra preencher a cota anual), dá um gosto danado assistir um filme assim.

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