Para Jean-Luc Godard, há sempre dois. E é a partir destes dois que surge tudo. Em Nossa Música, o cineasta suíço recorre à obra máxima de Dante Alligheri para tentar entender o mundo de hoje, um mundo onde os povos ainda se utilizam do método mais arcaico de todos para se fazer valer: a guerra. Dividido em Inferno, Purgatório e Paraíso, o longa discute o embate entre os opostos, seja na religião, na política, na arte, como o ponto de partida para qualquer tipo de conflito e, como conseqüência, para a civilização.

Godard parece entender que o mundo ainda está em formação. As batalhas de outras épocas são reprisadas através dos séculos e, hoje, as pessoas ainda são reféns de sua história de sangue. Rodado na Sarajevo que restou depois da guerra civil da Iugoslávia, o filme vai buscar na metalinguagem a solução para mostrar que os opostos estão em qualquer parte e que o nível de comprometimento é total. O próprio Godard faz (bem) o cineasta que vai dar uma palestra na cidade. Ele discute como o ponto de vista determina o objeto. A visão tendenciosa, ou seja, qualquer visão, fecha significados e aponta culpados.

Na melhor cena do filme, uma jornalista israelense entrevista um escritor árabe. O conflito entre os opostos surge de novo e Godard propõe uma charada: e se os troianos tivessem alguém tão eloqüente quanto o grego Homero para contar sua versão para a Guerra de Tróia? Quem seriam os vilões? Haveria mocinhos? A verdade depende tão somente das convicções do narrador. Godard sabe disso. Eu acho.

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[Notre Musique, Jean-Luc Godard, 2004]

 

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