O Lobisomem

Pode anotar: O Lobisomem, de Joe Johnston, é o filme mais corajoso do ano. O motivo é a ousadia do diretor que, numa época em que os efeitos digitais tomam cada vez mais espaço nas produções e são apontados como o futuro no fazer cinema, resolveu bancar um filme de gênero absolutamente retrô. Ele recicla fórmulas e sobretudo técnicas que remetem ao cinema de terror dos anos 30 e 40, época em que os monstros da Universal deram prestígio ao ramo. O Lobisomem parte para cima de Avatar, sem chances de ganhar, mas com uma fúria impressionante.

Fúria mesmo porque este filme é violentíssimo. Um espetáculo gore sem pudores, com sangue e partes de corpos para todos os lados. Mas nunca em tom gratuito. Johnston se inspira claramente em Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola, que já flertava com o terror clássico 18 anos atrás. O visual de seu filme é assumidamente envelhecido, desde a direção de arte suja, sobretudo na mansão da família Talbot, até a fotografia escura, que reforça o clima de suspense e é uma das maiores referências oldschool do filme, com movimentos de câmera classudos praticamente copiados de longas antigos.

Apesar da pouca cor, o diretor de fotografia Shelly Johnson consegue uma coleção de imagens belíssimas, seja apostando na simplicidade dos jogos de luzes ou inserindo elementos como na cena em que o protagonista, no meio de um delírio, olha para a cunhada. Benicio Del Toro, por sinal, nos presenteia com uma de suas interpretações mais complexas e sutis, sobretudo quando seu personagem está atordoado. A maquiagem pesada que ele carrega não nos priva dos detalhes de sua composição. Joe Johnston dispensou 90% dos efeitos visuais que poderia usar para criar seu monstro e chamou o gênio Rick Baker para criar os lobisomens da história.

E Baker trabalha com precisão, mas seu minucioso trabalho é assumidamente antigo e com resultados provavelmente muito diferentes do que a geração avatariana deve entender como um bom resultado. O CGI é usado apenas como acabamento para a transformação e movimentação do personagem. Um trabalho impecável, mas que pode parecer datado para muita gente. Esse deve ter sido justamente o motivo pelo qual o estúdio adiou a estreia do longa. Na temporada de filmes literalmente fantásticos do fim do ano passado, O Lobisomem seria engolido sem dó por Avatar, tanto na bilheteria quanto no “controle de qualidade” dos adolescentes. A decisão em manter a proposta de filme à moda antiga, quase artesanal, pode custar dólares e prestígio para Johnston, mas indica um diretor preocupado em assumir riscos para seguir um conceito. E, no meio disso tudo, fazer um filme delicioso como não se via há muito tempo.

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[The Wolfman, Joe Johnston, 2010]

Comentários

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11 thoughts on “O Lobisomem”

  1. CHICÓ, SUPER CONCORDO! Vi o filme ontem e todo mundo que estava comigo detestou, e as críticas que li (no Estadão) também eram pouco ou nada favoráveis, mas eu saí do cinema com um sorriso absolutamente nostálgico na cara, e falei exatamente isso: esse filme resgata o que há de mais inocente e mágico nos filmes de horror da década de 40, da música acachapante ao enredo sem as mirabolâncias que hoje parecem obrigatórias a qualquer suspense. E, claro, a fotografia, a maquiagem e os efeitos, que podem parecer datados, sim, mas justamente por isso são tão interessantes. Aleluia, não fui o único a gostar do filme!

  2. Muito bom mesmo, Chico.
    Cai um pouco do meio pro final, mas nada que contamine o resultado.
    Talvez porque eu preferisse que a cena da transformação no hospício fosse muito mais sangrenta. Acho que se perdeu ali uma ótima oportunidade catártica.

    PS: Acho que Rick Baker faz uma ponta como uma das vítimas de sua própria criatura.

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