Birdman

Deveria ter sido o Oscar mais emocionante em muito tempo, com disputas acirradas em boa parte das categorias: filme, diretor, ator, roteiros pra ficar somente nas principais, mas a festa deste ano foi bem maçante. Neil Patrick Harris começou muito bem no número de abertura, mas ficou pequeno e sem graça ao longo da noite, com poucos momentos inspirados, com exceção da corrida de Birdman, da leitura de suas previsões e da piada com John Travolta. Mas, mais do que o apresentador, havia um clima excessivamente sério no ar. Todo mundo parecia tentar encorpar seus momentos, seja nas lágrimas que rolaram soltas durante a apresentação de “Glory” (todo mundo chorando, mas cadê a diretora e o ator entre os indicados?), seja nos discursos de Eddie Redmayne, Julianne Moore, levando para fora do cinema os méritos por suas vitórias, ou Patricia Arquette, Graham Cooper e Johh Legend, tentando amplificar o efeito delas.

O prêmio da Academia, como qualquer outra coisa, reflete o tempo e o mundo em que vivemos, mas coincidentemente também é um prêmio de melhores do ano. Arbitrário e maneirista como qualquer prêmio de melhores do ano, inclusive os de festivais como Cannes e Berlim, que geralmente são apontados como reservas morais perto do Oscar. Então, esse maniqueísmo para tentar causar comoção – que me parece inerente e até automático ao Oscar, como se os premiados se sentissem obrigados a se explicar por ganhar – é completamente indevido. Talvez mais autêntico seja Alejandro Gonzalez Iñarritu, que fala em “arte verdadeira” quando Birdman leva o prêmio por seu roteiro original. A arrogância do cineasta pelo menos mostra que ele acredita e quer vender seu peixe, seu filme, seu “talento”.

Birdman não é ruim, mas seu discurso é. Mas isso realmente importa? Por quanto tempo dura um Oscar de melhor filme? Um ano? Alguns meses? O longa do Homem Pássaro foi eleito pela Academia como o melhor do ano, mas será que ele será o filme que entra para a História? E, por outro lado, será que um filme precisa entrar para a História? Se um dos indicados deste ano tem esse poder, certamente será Boyhood porque, diante de muitas biografias e pequenas histórias, ele e talvez O Grande Hotel Budapeste são os mais únicos. O filme de Richard Linklater, que merecia muito mais ter levado os dois prêmios principais do que o de Iñarritu, ficou marcado apenas por seus 12 anos de serviços, como se não fosse um retrato delicado do americano médio, do sonho americano em sua versão realidade.

A escolha de Birdman reprisa de certa forma a de Crash, oito anos atrás. Enquanto um supostamente desnuda Hollywood e suas figuras de cera, o outro tira a máscara de Los Angeles, a cidade do cada um por si. Premiar o filme de Inãrritu parece um voto político, de protesto, quando na verdade não se observou bem todas as nuances do filme. Mais estranho ainda é que este filme ganhe na categoria principal, em direção, roteiro original e fotografia, mas não consiga vender seu protagonista, Michael Keaton, que literalmente personifica o personagem criado pelo mexicano. Mas é preciso lembrar que a Academia geralmente considera os comebacks como café-com-leite, como fez com Mickey Rourke em O Lutador. Uma indicação já é vista como prêmio suficiente. Keaton perdeu para a caricatura bem feita de Redmayne num filme medíocre. Birdman, pelo menos, é um filme mais ousado.

Entre as atrizes, levou Julianne Moore, por Para Sempre Alice, que merecia ter ganho por Boogie Nights, Fim de Caso, Longe do Paraíso e As Horas. E por Magnolia, A Salvo, Tio Vânia em Nova York e A Fortuna de Cookie, pelos quais ela nem foi indicada. É a prática de premiar o conjunto da obra somado a uma isca que o Oscar adora, os filmes de doença. Mas é a Julianne e o conjunto estava fraco, exceto Marion Cotillard e Rosamund Pike. Patricia Arquette foi um prêmio merecido numa categoria fraca, atriz coadjuvante, onde só Emma Stone merecia alguma atenção. E olha que muita gente ficou de fora. J.K. Simmons, por sua vez, estava numa categoria disputada (ator coadjuvante), mas seu histórico de vitórias como ator coadjuvante o deixou numa liderança isolada.

No fim das contas, se Birdman ganhou quatro prêmios, O Grande Hotel Budapeste também levou quatro, inclusive trilha sonora, e as coisas ficam mais equilibradas. Wes Anderson fez um filme leve, doce, autorreferente e referente a um cinema que ficou na memória. Como Boyhood, deve entrar mais fácil para a História. Whiplash, triplamente premiado, é um caso mais à parte, mas merece toda a atenção. Ida venceu entre os estrangeiros porque a trilogia europeu, preto-e-branco, Segunda Guerra conta mais do que as profundezas da Rússia em Leviatã ou as pontualidades de Timbuktu, Tangerines e Relatos Selvagens.

Operação Big Hero ganhou de Como Treinar Seu Dragão 2 no que era uma das únicas quase-surpresas da noite. E Uma Aventura LEGO, que o Oscar nem indicou, rendeu o número musical mais divertido entre as indicadas a melhor canção. “Everything is Awesome” deixou o desafinado Adam Levine no chinelo – e olha que ele tinha uma música bem melhor -, mas não emocionou tanto quanto “Glory”, da qual a gente já falou. No entanto, foi justamente Lady Gaga, o patinho feio do ano, quem brilhou no palco, cantando “The Sound of Music”, e passando a bola para a incrível Julie Andrews, 80 anos neste ano. Idina Menzel voltou ao Oscar para garantir a piada com John Travolta, prêmio de pior maquiagem da festa (a melhor foi a do Capitão América, que estava com um lápis forte nos olhos). Valeu a piada. Foi a segunda melhor da noite. Só perdeu para a vitória de O Jogo da Imitação em roteiro adaptado. Ah, não era piada, o rapaz até disse que tentou se matar e que agora estava ali, ganhando um Oscar. Quis inspirar.

Por outro lado, o plano de Edward Snowden deu certo e Citizenfour foi o premiado na categoria de documentário. O timing faz do filme melhor do que ele é. Sniper Americano faturou mais de U$ 300 milhões, mas terminou com um prêmio solitário para edição de som, o que mostra que seu tema polêmico não conquistou Hollywood em cheio. Interestelar ganhou em efeitos visuais, só para empatar com 2001, em que ele mira antes de acertar no poder do amor. Idiossincrasias à parte, esse Oscar da disputa acirrada se revelou um dos mais óbvios dos últimos doze anos. Doze? Não, este aí é outro filme. Um muito melhor. Este, sim, bateu asas e voou sem precisar de ajuda.

Filme: Birdman
Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu, Birdman
Ator: Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo
Atriz: Julianne Moore, Para Sempre Alice
Ator coadjuvante: J.K. Simmons, Whiplash
Atriz coadjuvante: Patricia Arquette, Boyhood
Roteiro original: Birdman
Roteiro adaptado: O Jogo da Imitação
Filme estrangeiro: Ida
Filme de animação: Operação Big Hero
Fotografia: Birdman
Montagem: Whiplash
Direção de arte: O Grande Hotel Budapeste
Figurinos: O Grande Hotel Budapeste
Maquiagem: O Grande Hotel Budapeste
Trilha sonora: O Grande Hotel Budapeste
Canção: “Glory”, Selma
Mixagem de som: Whiplash
Edição de som: Sniper Americano
Efeitos visuais: Interestelar
Documentário: CITIZENFOUR
Documentário curta: Crisis Hotline: Veterans Press 1
Curta de ação: The Phone Call
Curta de animação: O Banquete

Comentários

comentários

18 thoughts on “Oscar 2015: why so serious?”

  1. Fiquei extremamente silencioso com as vitórias de “Birdman”. Acho que “Boyhood”, pela força do cinema, deveria ter levado e sido agraciado. “Birdman” é uma obra maravilhosa, mas acho que não marcará época. Triste.

  2. O que mais me irrita em Birdman é a hipocrisia do discurso. A direção do Iñarritu é pedante e o tom “wanna be” do filme é a perfeita falsa autocrítica que Hollywood adora.

  3. Hoje cedo, quando vi a lista de vencedores antes de ler teu texto, fiz a mesma comparação mental entre a vitória de Birdman e a de Crash, em 2006. Tanto pelos motivos que você citou quanto pelo fato de que o filme era um pastiche dos que o próprio Iñarritu tinha feito até então, com o Guillermo Arriaga. Hoje, a gente lembra de Crash como um dos piores filmes a ganhar a estatueta de melhor filme e também como o azarão que tirou o grande prêmio de Brokeback Mountain e o Oscar de melhor roteiro original de Boa Noite e Boa Sorte. Birdman é melhor que Crash, mas se passar à História vai ser como o filme que tirou o Oscar de Boyhood.

    1. Particularmente, já acho inacreditável alguém associar Birdman ao pavoroso Crash, seguramente um dos piores filmes a ganhar um Oscar. Se Birdman é melhor ou inferior a Boyhood, pode-se discutir (e discordar, pois muito crítico por aí tinha preferência por Birdman). Mas daí a achar que entrará para a história como o filme que roubou o Oscar de Boyhood, bem, discordo. Mesmo porque Boyhood não é exatamente uma unanimidade, assim como Birdman.

      1. Concordo com o Pedro, acho que a comparação com Crash não tem nenhum sentido. Acho que é possível que Birdman passe à história como um filme não tão bom quanto parece, mas Crash já se sabia horroroso à época que ganhou, sendo apenas a resposta do conservadorismo à iminente vitória de Brokeback Mountain.

  4. Isso tudo o que você falou no texto é verdade. Era pra ser o Oscar mais emocionante, mas acabou sendo até mais previsível do que o do ano passado. Birdman, por mais que seja bom, não vai ser tão relevantes e marcante como Boyhood. O maior prêmio que o filme de Richard Linklater vai receber é o legado na história do cinema, e isso me conforta.

    1. Desde que Batman, o melhor filme de 2008, sequer foi indicado ao Oscar de Direção, quiçá do de filme, me recuso a aceitar essa série de idiossincrasias que permeiam a história do prêmio, repleto de injustiças. A história mais famosa ainda é a de Cidadão Kane. Welles perdeu o Oscar de Filme, e Diretor (ganhou só roteiro) para o filme dramático de crise familiar e crítica social “Como Era Verde o Meu Vale” (um filme no máximo regular, com uma crítica social razoável mas pouco marcante), do inigualável John Ford (neste que não foi nem um de seus melhores trabalhos, na minha opinião). Mas a história lhe fez justiça: Todos sabem quem foi cidadão Kane, e ninguém mais se lembra do filme de Ford. Da mesma forma, comparo a derrota de Keaton (uma coisa bizarra, considerando o que os críticos comentaram como “engodo”: assistindo Redmayne em “O Destino de Jupiter” você percebe o quão artificial e robótica é a sua atuação como Stephen Hawking no filme mediano que é “A Teoria de Tudo”) com a vitória de Roberto Begnini em 1998 sobre Tom Hanks e sua atuação antológica em “O Resgate do Soldado Ryan”. Uma afronta à natureza da atuação com fundo claro de “politicamente correto”, onde se premia a intenção ao invés da qualidade de atuação. Há situações em que isso passa batido até pela concorrência (este ano, o Oscar de melhor atriz refletiu isso), mas em um ano em que até Benedict Cumberbatch atuou melhor, a recusa da Academia em premiar Keaton quando o filme que ele leva nas costas levou todos os prêmios principais é um paradoxo. Mais feliz foi Iñarritú pôr Keaton para discursar ao receber o Oscar de melhor filme: um tapa de luva de pelica nessa Academia quase sempre politicamente correta e cafona.

  5. Acho que esperar algo a mais do Oscar é querer enganar a si mesmo. Deveriamos ficar felizes por termos um ano com tantos bons concorrentes. Agora com relação a Birdman, o engraçado é que se alguem tenta algo, que se não é novo, pelo menos é diferente, já é tachado de arrogante e falso. Quanto a Keaton não ser premiado é porque a interpretação de Redmayne é muito boa, mesmo o filme não sendo, seu trabalho é louvável e merecido. Boyhood é ótimo, mas assim como Birdman, é um filme para poucos, querer que ele alcance a todos é bobagem, vamos agradecer ao Oscar por ter dado mais visibilidade a estes filmes e quem sabe transformar algumas pessoas de voyeur de cinema para amantes de cinema.

  6. Acho que, no fim das contas, o Oscar ficou no lucro. É muito raro um filme cult como Birdman levar os prêmios mais importantes da noite. Se Boyhood levasse o Oscar, certamente haveriam muitos do outro lado reclamando o prêmio para Birdman. Oscar é assim: até nas (poucas) vezes que acerta, ele “erra”, não dá para agradar todo mundo. O que devemos celebrar é que tivemos uma edição em que os principais competidores eram filmes cult como Boyhood, Birdman e O Grande Hotel Budapeste (meu favorito), ainda que Birdman não preze pela discrição (pode-se discutir aqui e ali um excesso de firula técnica de Iñarritu). Qualquer um desses que ganhasse seria interessante. E não tivemos nenhuma atriz “jovem e bonita” que finge ser boa atriz levando prêmio de veterana.

  7. Chico, parabéns pela brilhante análise. Só não concordei pois não acho o trabalho de Redmayne uma caricatura, ainda que o filme seja medíocre.
    E fiquei emocionado com o final de sua resenha. É verdade, “Boyhood” ganhou asas e voou longe, mesmo sem o Oscar de melhor filme.

      1. Não acho a interpretação do Eddie ruim, ele é um excelente ator… já trabalhou até com a Julianne Moore (Savage Grace)… e, na minha opinião, Benedict foi o melhor de todos…Mas, se Cidadão Kane não ganhou, como justificar que Gloria Swanson, soberba em Crepúsculo dos Deuses (1950) tb não ganhou?

  8. Beleza de análise. Oscar é indústria, é dindim, é clichê como qualquer outra coisa que digamos. O “melhor” é relativo e temporal. Grandes obras não. Sejam elas filmes, músicas, literatura etc. Cinema, como arte, precisa fazer pensar e emocionar. Quando acontecem as duas coisas, oba, temos uma obra-prima. E nos dias atuais, emocionar já é uma grande coisa, vide Grande Hotel Budapeste ou Dois dias, uma noite, em que é impossível ficar indiferente ao sofrimento da personagem de Marion Cottllard, única à altura de Julianne este ano. Não vi o Eddie em Teoria de tudo, mas me pergunto, como não ser caricato e mecânico personificando tal pessoa? E a academia adora não? Injustiças como Crash – no limite – tem aos montes. Shakespeare apaixonado, filme e atriz. Russel Crowe em Gladiador e tantos outros. Faz algum tempo que, assim como nos desfiles de carnaval, torço para o filme que mais me emociona. Geralmente não ganho, mas ainda é melhor que engolir as ‘falsas iscas’. Abraço

  9. Não se pode levar o Oscar a sério há muitos anos. Dito isso, “Boyhood” e “Birdman” são propostas de cinema completamente diferentes, e é uma pena que tenham sido inevitavelmente comparados para que só um deles tenha levado o grande prêmio. Linklater tem, entre vários méritos, a coerência em mais uma vez refletir e fazer refletir sobre a passagem do tempo – na trilogia do “Antes” o tempo é expandido por quase 20 anos, e em “Boyhood”, 12 anos são comprimidos em 3h. Já Iñarritu resolveu pegar mais leve na crítica, deixando de lado o peso de “Babel” e “21 Gramas”, e dar uma alfinetada e uma piscadela com esse “Birdman”; abriu mão de dar suas porradas, e se deu bem. Ambos são ótimos filmes – e incomparáveis entre si -, mas nenhum deles fantástico. Cadê “Sob a Pele” ou “Era Uma Vez em Nova York”, ambos tb tão diferentes entre si, mas tão superiores em seus gêneros? Coisas do tio Oscar.

  10. A verdade é que nada mais fica para a história! Os filmes duram apenas o tempo em que estão nas paradas. Mas Chico, você apontou tantos momentos legais da premiação! Não foi tão chata assim! E se todo mundo resolveu ser sério e engajado é porque, de alguma forma, o Oscar está refletindo um momento. E é sempre bom abrir bem as orelhas e os olhos quando os artistas se manifestam. Não estou discordando de você, até porque gosto demais de ler seu blog e acho você um cara sensacional!!!

  11. Quero acreditar que os 12 anos que você cita no fim do seu texto se refira a “12 anos de escravidão”, um ótimo filme. Pois “Boyhood” estará esquecido em sessões de sábado no Megapix enquanto “Birdman” será lembrado pela sua linguagem e pela atuação magistral de Keaton. É impensável para mim que defendam o filme do Linklater com tanta veemência sendo que nada mais é do que um filme comum, com o plus de ter sido realizado por tanto tempo (o efeito é bonito, o do envelhecimento dos atores, mas passa apenas como curiosidade). Até “O Grande Hotel Budapeste” mereceria mais do que “Boyhood”. A premiação, a meu ver, foi justa.

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