Polícia Federal – A Lei é para Todos

Polícia Federal – A Lei é para Todos está de parabéns. Nenhum filme conseguiu retratar com tamanha fidelidade a situação em que se encontra o Brasil nos últimos anos: o “nós” contra o “eles”. A cada diálogo, a cada cena, o longa de Marcelo Antunez reforça o maniqueísmo do certo contra o errado, sem quaisquer nuances, classificando e condenando o “eles” à caricatura: todos são simulados, sarcásticos, galhofeiros, vilões clássicos de uma maneira geral. Enquanto isso, o “nós” representa um grupo de policiais infalíveis, heróis interessados apenas no bem do país.

Se fosse para ser apartidário, como tanto propagou sua equipe, o filme teria outro título. Ao tomar a decisão de batizar o projeto com o nome do orgão policial, os produtores assumiram o risco de passar por propaganda institucional e o resultado só comprova que o longa toma partido disfarçadamente. A primeira prova está na escolha por identificar os “bandidos”, nomeando os investigados indiscriminadamente, enquanto os “mocinhos” são “protegidos” por codinomes aleatórios. O juiz Sergio Moro ganhou tratamento especial: seu nome não é citado, mas aparece escrito na tela.

Polícia Federal - A Lei é para TodosO que não se explica direito é porque, em determinado momento, o filme, que até então estava dramatizando todos os acontecimentos e personagens a sua maneira (incluindo a imprensa) decide, inesperadamente, utilizar a imagem da jornalista Délis Ortiz e uma fala da ex-presidenta Dilma Rousseff, justamente aquela em que ela anuncia a nomeação de Lula para o ministério. Parece uma tentativa de “chamar para a realidade”, embora o discurso seja utilizado numa cena que tem pouco apreço à verossimilhança: um dos delegados é pego de surpresa, ao assistir à declaração pela TV, a manobra de Dilma, quando este “evento” já vinha sendo cogitado em todo o país desde a condução coercitiva de Lula.

O filme sente tanta culpa por sua parcialidade que, o tempo inteiro, parece pedir desculpas, tentando justificar suas ações com diálogos toscos como: “delegado, sabe aquele momento entre pedir para desligar a escuta e a escuta ser efetivamente desligada?” ou “a quem nós estamos ajudando? Eu quero acreditar que ao Brasil”. Isso sem falar na cena pós-créditos que antecipa um segundo filme da “franquia”. Os produtores parecem pedir o subtítulo do capítulo dois de Tropa de Elite: “O Inimigo Agora é Outro”.

Polícia Federal - A Lei é para TodosA direção tenta traduzir o orçamento milionário – os financiadores preferem se manter anônimos, ora vejam só – numa montagem rápida, alguns efeitos especiais (características que deverão garantir o “nem parece filme brasileiro”) e numa lista de nomes conhecidos das novelas das oito para garantir a “qualidade dramática” do material. Isso quando o espectador tem grandes expectativas em relação à interpretação de Flávia Alessandra, compra a testa franzida e as poucas palavras da composição de Marcelo Serrado como Moro, aguenta a agressividade da performance de Ary Fontoura como Lula, ou suporta o tom sempre solene das falas de Bruce Gomlevski (com direito à propaganda indireta de seu musical de teatro em que vive Renato Russo. No filme, ele canta, mas, combinando com o clima, a música é de Roger, do Ultraje a Rigor).

É provável que, mesmo com tantos senões, Polícia Federal – A Lei é para Todos encontre seu público. Afinal, o filme oferece um discurso que já está introjetado em boa parte da população, que muito bem pode entender o bom acabamento do filme como qualidade artística. Além disso, o longa oferece didaticamente uma aula de história para o espectador. História que, como a gente bem sabe, é escrita por quem ganha ou porque quem acha que ganhou.

Polícia Federal – A Lei é para Todos Estrelinha½
[Polícia Federal – A Lei é para Todos, Marcelo Antunez, 2017]

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