Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Keira Knightley

Quando se acompanha a obra de um determinado cineasta há muito tempo é natural perceber o movimento de seu cinema. Em alguns diretores, a evolução de sua maneira de filmar é bastante clara, como em Pedro Almodóvar e David Cronenberg. Os dois têm em comum a origem no popular. Enquanto o espanhol dirigia comédias cheias de amoralidade, sexo e palavrões, o canadenense construía uma carreira viscosa, com monstros, gosmas e seres fantásticos.

Aos poucos, os cinemas de ambos ganharam não apenas mais substância em termos de roteiro, mas aumentaram o rigor visual, o domínio de cena e a a performance atrás das câmeras. Seus projetos de cinema amadureceram em frente a nossos olhos. E o mais importante: os dois mantiveram suas marcas individuais, mesmo ampliando seu leque de temáticas e seu conceito mais fechado de como deve ser um filme.

É por causa disso a monumental decepção com o novo filme de Cronenberg. Um Método Perigoso prometia muito ao se dispor a narrar o encontro dos dois maiores nomes da psicanálise, Carl Jung e Sigmund Freud, mas o cineasta dirige essa história da maneira mais convencional possível, dedicando a maior parte do filme a discorrer sobre uma história de amor proibido em vez de aprofundar os personagens, coisa que sempre fez. Basta ver Gêmeos – Mórbida Semelhança.

O resultado é uma bela carruagem sem cocheiro. Porque se existe um rigor estético na fotografia, sem excessos mas cheia de bom gosto, e na reconstrução de época, não sobra o menor traço que identifique este como um filme de David Cronenberg. Mesmo em Marcas da Violência e Senhores do Crime, filmes, digamos, mais comportados do diretor, sobra ousadia como no plano-sequência que encerra a cena de abertura do primeiro ou na luta na sauna, ponto alto do segundo. Neste, não há nada.

Sem marcas, Um Método Perigoso poderia ter a assinatura de qualquer outro diretor que volta e meia faz um filme de época para parar na lista do Oscar. É um golpe ainda mais profundo do que o de Roman Polanski, em O Pianista, que, embora renegasse a bagagem de seu criador, pelo menos tinha um apelo emocional forte. Até Rob Marshall talvez entregasse um filme menos burocrático do que Cronenberg.

Michael Fassbender é quem mais sofre com o academicismo imposto pelo diretor. Seu personagem é enfadonho, linear e sem qualquer ranhura. Keira Knightley usa todas as armas que pode para concorrer ao Oscar. Por armas, entenda-se caretas, histrionismo e overacting. Chega a ser insuportável em algumas cenas. Do trio de protagonistas, Viggo Mortensen e sua serenidade diabólica é o único que escapa à pasteurização. Mesmo assim, o personagem amoral de Vincent Cassel, numa curta participação, ainda é o melhor do filme.

É difícil entender o que aconteceu: Cronenberg está cansado? Está em busca de reconhecimento de um público maior? Ficou amendrontado diante dos ilustres personagens? Quem souber a resposta, por favor, se manifeste. Enquanto isso, resta esperar para que, como Almodóvar depois daquele tropeço chamado Má Educação, Cronenberg volte a fazer um filme realmente bom. Bem, mas do Almodóvar a gente continua esperando…

Um Método Perigoso EstrelinhaEstrelinha
[A Dangerous Method, David Cronenberg, 2011]

Comentários

comentários

7 thoughts on “Um Método Perigoso”

  1. Chicó, eu já gostei mais.

    E penso que essa maneira clássica, ‘careta’ de filmar seja uma tentativa de preservar o diálogo, tão protagonista.

    A Knightley me causa um desconforto no início. Também acho over, teatral, exagerado, pronta para um Oscar (que talvez a Octavia Spencer roube dela, eu adoraria ver), mas depois, no decorrer do tratamento, ela vai aquietando e eu já gosto mais.

    Pena que não vimos juntos. Eu vi com o Leozito.

  2. Eu adorei o filme, Chico. E acho que é de alguém que tem anos de psicanálise (eu também tenho, aliás). O filme preserva e sobrevaloriza a palavra, porque é esse o elemento valorizado pelo tal “método perigoso” que os protagonistas tanto defendem. Todos aqueles personagens ESTÃO EM ANÁLISE, não só a Sabina de Keira. Essa é a marca – uma marca racional, não visual – do Cronenberg: entender que esses personagens mereciam a fala como suporte. E isso, pombas, Rob Marshall jamais entenderia.

    Não gosto de Keira, mas diferente de você acho o Jung do Fassbender sensacional, bastante denso. E diferente de você, não acho que o filme escolha o lado do Freud. O Jung precisava romper com ele pra criar sua própria teoria, e é esse o processo.

    Enfim, eu AMO o filme.

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