Acima das Nuvens

O novo filme de Olivier Assayas se arrisca em tantas camadas que é realmente surpreendente que ele seja tão bem resolvido. Juliette Binoche interpreta Maria Enders, atriz de sucesso convidada para fazer uma nova montagem da peça que a lançou, mas desta vez em vez de viver a personagem jovem que a consagrou, caberá a ela o papel da mulher mais madura. A partir desta premissa muito simples, o diretor lança uma série de questionamentos que se desdobram em outros ainda maiores.

Paralelamente às dúvidas da protagonista em aceitar o papel, que geram uma discussão sobre o passar do tempo, a velhice e, mais tarde, sobre as perspectivas que maturidade traz, inicia-se um diálogo/duelo com Kristen Stewart, ótima no papel da assistente pessoal e voz da consciência de Enders. Esta segunda personagem introduz um debate, que parece velho, sobre a Hollywood de hoje e o culto à celebridade que devorou o culto ao artista, mas que o cineasta nos apresenta por outro prisma. Stewart atua como porta voz de Assayas, que reconhece valores num ambiente tão hostil ao talento.

Se Binoche faz a atriz europeia e veterana que vive à margem dos holofotes e Chloë Grace Moretz encarna a nova mini-diva hollywoodiana, Kristen Stewart tem, na verdade, uma metapersonagem, que catalisa as discussões sobre exposição sem ser uma caricatura da atriz fora das telas. O casting de Stewart é excelente e faz com que ela própria questione sua persona pública e exerça uma espécie de direito de resposta à maneira como a mídia a trata, uma escolha corajosa da atriz em aceitar alguns diálogos que se referem diretamente a sua vida pessoal.

A vampira da Saga Crepúsculo também aciona outro dispositivo importante no filme, a discussão sobre representação. Ao ajudar Enders na leitura da peça, assumindo o papel da jovem enquanto Binoche lê as falas da mulher mais velha, as duas questionam a representação em si. Não no nível quase laboratorial de “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, mas em diálogos com ecos bergmaníanos que transformam essas leituras em ensaios comentados do próprio texto. Assayas comanda todas essas discussões com uma habilidade para revezá-las e justificá-las, deixando o fluxo das coisas orgânico em Acima das Nuvens.

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[Clouds of Sils Maria, Olivier Assayas, 2014]

Comentários

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4 comentários sobre “Acima das Nuvens”

  1. Como você, creio que Assayas atinge um elaborado grau de reflexão sobre a proximidade entre a encenação e a realidade, e como elas se confundem e até se copiam, lembrando trabalhos os trabalhos recentes de Resnais (Vocês Ainda não Viram Nada!) e Polanski (A Pele de Vênus), assim como o Jogo de Cena, de Coutinho, muito bem apontado por você. O interessante, a meu ver, é que, adotando um foco mais abrangente do que essas grandes obras, o diretor não fixa seu filme nesse estudo – que por si só rende bastante – e avalia ainda a indústria cinematográfica por essas duas óticas conflitantes apontadas em seu texto; sem oferecer, porém, (acho importante ressaltar) julgamentos ou respostas. Propositalmente, claro.

    Concordo sobre o desempenho de Stewart, atriz notavelmente em evolução, tendo ainda outro bom trabalho esse ano em Para Sempre Alice. Seguro dizer que o trabalho ao lado de duas grandes atrizes (Binoche e Moore) fez muito bem à estrela da saga Crepúsculo.

    Belo texto. Grande filme.

  2. Acho que o filme debate além das questões bem levantadas por você na crítica, um desdobramento da fama no questionamento de atores consagrados em filmes europeus nas tentativas de carreira em Hollywood (no dialogo final de Maria com o diretor), a aceitação do amadurecimento através do personagem, o choque de gerações que veêm filmes no cinema – em gêneros e gostos de cada geração – seja ela do Crepúsculo/Harry Potter ou a dos filmes/diretores cultuados, também acho que ele questiona o egocentrismo da carreira de ator/atriz/diretor representados pela busca da imprensa de celebridades, paparazzis para saber mais sobre aquele ser humano intocavél.

    Acho que esse é um o filme menos francês do diretor, mas o mais universal levantando essas questões super atuais e relevantes para a indústria.

    Acho que Kristen Stewart é uma boa atriz, tem uma excelente atuação por ser bem dirigida por Olivier Assayas e pelo papel ser tão próximo e crítico a realidade dela, fiquei bem impressionado com a diversidade que ela mostra no papel ao contrário dos personagens que costuma fazer.

    AMO Juliette Binoche! E torço para ela ganhar ou ser indicada para algum prêmio…

    😉 abs Chico

    Fabio

  3. E com uma tal crítica excelente, não apenas do fime, mas excelente no próprio texto que que o comenta, você dá nota 4? Qual é a máxima, então? Sua resenha, por exemplo, tem minha nota máxima – seria 5? 10?
    Abraço, Vera

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