A história de um filme sem pai

Pois bem, eu gostei de Água Negra, um filme que já chegou aos cinemas junto com uma avaliação tão ruim quanto injusta. Não que eu seja exatamente um defensor do cinema de Walter Salles, que tem alguns tropeços na carreira e cujos melhores filmes são irregulares. Esta primeira experiência internacional do diretor sofreu por duas coisas: primeiro, o preconceito – isso mesmo – de ver um cineasta, digamos, mais autoral numa incursão hollywoodiana com o agravante do gênero escolhido para esse contato inicial com um grande projeto.

A segunda, e mais grave, é o preconceito do diretor para com o filme que, mesmo com a tão divulgada falta de acesso ao corte final, ele mesmo dirigiu. Essa tática de não dar muita atenção ao lançamento do longa, de espalhar aos quatro cantos que foi obrigado a fazer mudanças depois de exibições-testes, de querer subtrair o terror da campanha de divulgação enfocando o drama psicológico (mesmo que ele, o terror, não seja mesmo foco, ele existe no cerne na história e não pode ser ignorado); tudo isso parece bastante covarde da parte de Walter Salles mesmo que seja verdade. Ficar se justificando ou se negando a justificar contou mais pontos contra o filme do que a falta de controle que o diretor teve.

Água Negra é um filme de terror, construído nos mesmos moldes das histórias em voga nos últimos anos: uma questão familiar inacabada, mal resolvida, e um elemento sobrenatural. Tudo isso está na tela. O ponto de partida, bem limitado e cada vez mais recorrente e menos criativo, no entanto, ganha um diferencial, que é justamente o que muita gente não bota fé: há mão de Salles ali, um diretor que o tempo inteiro tenta não entregar uma visão reducionista da questão principal, que paralelamente ao conto de horror que narra constrói uma personagem complexa, nunca gratuita, mergulhada no caos emocional. A Dahlia de Jennifer Connelly, que acredita bastante no seu papel, é uma mulher frágil que tenta ser uma mulher forte.

O que faz de Dahlia grande é justamente o quanto ela tenta matar suas limitações para cuidar de sua filha. Acho grotesco querer minimizar a tragédia da personagem classificando de “frescura” sua fragilidade. A imensa disponibilidade para ser mãe que existe nessa história é muito mais interessante de que qualquer tentativa de fazer susto. Há muito poucas cenas realmente assustadoras, o que frustou bastante o público. O horror ganha contornos bem mais indefinidos. Água Negra era para ser um filme de família. Por isso, é extremamente triste que este filme de família tenha sido abandonado pelo próprio pai. Se Salles defendesse sua cria tanto quanto a personagem de Jennifer Connelly, mesmo sem saber muito bem o que fazer e que direção tomar, se dedica a sua filha, Água Negra sairia muito mais fortalecido.

ÁGUA NEGRA
Dark Water, Estados Unidos, 2005.
Direção: Walter Salles.
Roteiro: Rafael Yglesias, baseado no livro de Kôji Suzuki e no roteiro de autoria de Hideo Nakata e Takashige Ichise.
Elenco: Jennifer Connelly, Ariel Gade, John C. Reilly, Tim Roth, Dougray Scott, Pete Postlethwaite, Perla Haney-Jardine, Matthew Lemche, Elina Löwensohn, Camryn Manheim, Debra Monk.
Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Daniel Rezende. Direção de Arte: Thérèse DePrez. Música: Angelo Badalamenti. Figurinos: Michael Wilkinson. Produção: Doug Davison, Roy Lee e Bill Mechanic. Site Oficial: Água Negra. Duração: 105 min.

nas picapes: Passive Manipulation, The White Stripes.

Comentários

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5 comentários sobre “Água Negra”

  1. Não lembrei de Abril Despedaçado em momento algum. Acho que o filme guarda algumas características recorrentes do cinema do Salles, de que eu nem sempre gosto, mas está longe de ser a nulidade de Abril.

  2. vi ontem e pra falar a verdade não gostei mesmo… hoje o filme até me parece “menos pior”, mas enfim… o mais engraçado é uma cena na cozinha do apartamento, em que a mãe gira com a filha no colo… putz, por cerca de 5 ou 10 segundos parecia que eu estava assistindo a abril despedaçado. fora isso, eu não gosto dessa coisa de 50% dos filmes de terror/suspense de sempre se apoiarem na infância pra desenvolver formas de medo e/ou traumas.

  3. Devo ir ver amanhã. Mas gostei do teu texto. Gosto quando aparece alguém pra falar bem de um filme que todo mundo esnoba, até o diretor. Principalmente quando eu ainda não vi. Hehhe

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