Boa Sorte, Meu Amor

A maior qualidade de Boa Sorte, Meu Amor é sua ousadia. O pernambucano Daniel Aragão parece ávido por soltar a voz: quer discutir grandes temas, encher cada cena com múltiplos significados, oferecer um novo cinema ao mesmo tempo em que homenageia cinemas antigos. Esse conjunto algumas vezes leva o filme para a fronteira da afetação e os experimentos estéticos e de formato do diretor podem ser interpretados como maneirismos estilísticos. No entanto, a inquietação de Aragão, ainda que ele seja um estreante em longas-metragens, remete a uma ansiedade presente em grandes artistas.

Em linhas gerais – e bastante resumidas, o filme é uma história de amor entre duas pessoas de classes sociais distintas, com conflitos que ultrapassam as origens de cada um e se instalam em seus perfis. Enquanto Dirceu é um playboy, empresário do ramo da demolição, Maria é uma moça simples, nascida numa família pobre, que veio para a capital para estudar música. Mas as discussões levantadas pela premissa rapidamente englobam questões maiores, enormes. Aragão passa a investigar as origens da oligarquia nordestina, a herança do coronelismo, o peso do passado e divaga até sobre o amor.

Parece exagero – e talvez até seja  porque o filme termina não se aprofundando em algumas destas discussões -, mas esta vontade do diretor de se manifestar é genuína. Aragão revela uma afobação quase ingênua em dar a palavra final sobre todos os assuntos que puder, seja numa cena-intervalo numa mesa de jantar, seja nos desdobramentos da própria trama do filme, mas seus pontos de vista sempre têm algo a oferecer. E esse fluxo ininterrupto de pensamentos vem acompanhado por uma bagagem cinematográfica. Poucos filmes com um projeto estilístico tão arrojado conseguem um equilíbrio entre suas experimentações e seu bom gosto.   

O preto-e-branco não é apenas uma opção plástica, mas ajuda a evocar tanto as histórias daqueles personagens e daquele lugar como alguns modelos de cinema que o filme incorpora e recicla. A utilização da música é ainda mais rica porque ora ela apenas serve de acompanhamento para a cena, ora tem vida própria, seguindo um rumo e um propósito diferentes do que está na tela, assim como o próprio filme encontra novas formas para apresentar uma história de amor. A montagem e o som reforçam essa busca por um formato diferente, tentando encontrar no “caos” uma linguagem, o que parece dialogar com a maneira como diretor apresenta o crescimento desordenado de sua cidade.

Vinicius Zinn e Christiana Ubach se saem bem nos papéis principais, mas perdem para a excelente Maeve Jinkings, de O Som ao Redor, que chama atenção mesmo que numa participação pequena. Apesar de radicalmente diferentes entre si, o longa de Aragão dialoga com o filme de Kleber Mendonça Filho, do qual trabalhou na seleção e elenco, sobretudo ao tentar traduzir o Pernambuco contemporâneo, herdeiro e refém de um sistema de relações que nasceu no campo. Boa Sorte, Meu Amor é um filme cheio de pretensão, mas pretender nunca foi defeito quando se tem algo interessante a dizer. A “verborragia” de Daniel Aragão incomoda aqui e ali, mas pode ser o começo de uma bela carreira.

Boa Sorte, Meu Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Boa Sorte, Meu Amor, Daniel Aragão, 2012]

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