Camille Claudel 1915 + Entrevista Bruno Dumont

Camille Claudel 1915

Juliette Binoche está em quase todas as cenas de Camille Claudel 1915. Um tour-de-force para uma atriz que, às vésperas de completar 50 anos, não tem mais nada a provar, mas que continua entregando interpretações únicas. No filme de Bruno Dumont, a parisiense está avassaladora, enchendo a tela tanto quando a câmera busca as expressões mais íntimas de seu rosto quanto nos momentos em que a observa, afastada, dando corpo à solidão e ao incômodo da personagem. Camille Claudel, a escultora, é apresentada já em seus últimos dias de vida, enclausurada num convento, considerada louca.

Operando neste recorte, Dumont evita as armadilhas e maneirismos de uma cinebiografia tradicional, como a que Bruno Nuytten dirigiu em 1988 e que deu uma indicação ao Oscar para Isabelle Adjani. Sem se obrigar a explicar a história da artista o cineasta faz um retrato árido de uma mulher que vive isolada do mundo e, possivelmente pela primeira vez em sua carreira, entrega boa parte da responsabilidade sobre o filme para uma atriz. Em sua obra anterior até aqui, Dumont sempre se caracterizou com um diretor de atores não profissionais, que colaboravam para que seus temas surgissem tanto da ausência do drama quanto da falta de aproximação.

Aqui, embora Binoche pareça ser dirigida para ter uma interpretação econômica, o talento e a experiência da atriz se sobrepõem ao trabalho do cineasta. Camille Claudel 1915 é tanto um filme de Binoche quanto um filme de Dumont, embora os temas caros a seu cinema estejam presentes. As opções do diretor desafiam a atriz. Sem a presença de Auguste Rodin, com quem a personagem teve um conturbado relacionamento amoroso, aqui resumido a uma citação na conversa entre Camille com o diretor do convento, o filme basicamente se resume a Binoche e sua interação muito mais com o vazio do que com os coadjuvantes. Seu único contraponto entra em cena apenas no terço final do longa. Jean-Luc Vicent faz Paul Claudel, irmão de Camille, que concentra o discurso religioso, sempre presente nos filmes de Dumont.

É justamente quando a religião se faz presente, com sua função expiatória e moralista, dando algum tipo de explicação, resolvendo em algum nível a situação, que o filme perde um pouco de sua força. Enquanto Binoche reina solitária, enquanto sua dor é abstrata, enquanto os portões do convento estão abertos, mas sua personagem não pensa em sair dali, enquanto a hostilidade está mais nas paredes do que nas pessoas que convivem com ela, a desesperança de Camille parece ganhar um retrato muito mais fiel, é ali que está a tradução de uma mulher para a qual a vida se tornou intangível.

entrevista com Bruno Dumont

Por que você decidiu focar o filme nos últimos dias da vida de Camille Claudel?

Esta parte da vida dela é praticamente desconhecida. E eu sempre fico tentado com aventuras.

Como você chegou em Juliette Binoche e o que ela trouxe para o filme?

Me parecia natural que uma artista interpretasse outra artista. É como usar o mar para representar o mar.

Religiosidade é um de seus temas favoritos. Neste filme, o personagem de Paul Claudel concentra boa parte do discurso religioso. Como você o vê?

Ele concentra o que nós, franceses, temos de mais covarde, mas sem deixar de inspirar graça.

Alguns críticos comparam seu trabalho neste filme com a obra de Robert Bresson. Ele foi ou é uma influência?

Robert quem?

O que você acha do Camille Claudel que Bruno Nuytten dirigiu? (com Isabelle Adjani, em 1988)

Não lembro.

Você já tem um novo projeto? 

Sim. P’tit Quinquin (segundo o IMDB, uma série prevista para 2014. O título é o mesmo de uma canção composta por Alexandre Desrrousseaux, em 1853, escrita na língua de Picard, um dialeto próximo ao francês).

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[Camille Claudel 1915, Bruno Dumont, 2013]

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