Frances Ha

Frances Ha é um sopro de vida na produção audiovisual indie norte-americana, que cada vez mais mergulha em maneirismos e fica presa a fórmulas e perfis que se repetem à exaustão. O maior mérito do filme, para além da qualidade do texto, da realização ou das interpretações, está em seu frescor. O longa de Noah Baumbach é ambientado no mesmo cenário dos filmes independentes nova-iorquinos, passeia por temáticas semelhantes aos dramas dos protagonistas destas obras, mas evita os ranços comuns a essas segmento, cada vez mais preguiçoso, apostando na representação dentro de seu nicho e cuja voz tem um alcance mais limitado. De uma maneira geral, Frances Ha enxerga a complexidade das relações humanas numa grande cidade de uma forma mais natural, mas sem que isso signifique que a vida seja mais fácil para a personagem principal.

A protagonista do filme de Baumbach, embora namore com vários estereótipos, termina não se encaixando em nenhum. Ela faz dança moderna, tem uma melhor amiga editora, vive no circuito alternativo da cidade, discute filmes e livros, mas parece muito mais tentar se encaixar nas turmas de hipster, indies, culties, artistas e intelectuais do que representar necessariamente algum destes grupos. O jeito desajeitado de Frances torna a personagem mais honesta, seus diálogos são mais simples e sinceros, suas danças malucas na praça parecem autênticas, um conjunto que deixa seus dramas – e eles existem, embora ela os negue – mais próximos do espectador do que os faniquitos que os protagonistas de Girls (aqui representados por Adam Driver) começaram a desenvolver, para ficar num exemplo mais recente.

Esse frescor que está no cerne de Frances Ha, que foi produzido pela brasileira RT Features, se deve em boa parte à parceria do diretor com Greta Gerwig, atriz e corroteirista, que participou de todo o processo de criação. Como cineasta ou escritor, Baumbach tem um belo histórico de filmes que se destacam na produção indie (A Vida Marinha com Steve Zissou, A Lula e a Baleia e O Fantástico Sr. Raposo), mas seus filmes tendem mais a retrabalhar os clichês deste universo do que a lançar um respiro ao clima melancólico e “cabeça” como faz este novo longa. A naturalidade de Gerwig credibiliza a jornada tragicômica de Frances e, embora seja uma personagem ficcional como a atriz frisa na entrevista abaixo, a maneira como ela costura a história desta personagem a sua própria, passando por uma visita a sua cidade natal e com seus pais interpretandos seus pais, cria um clima de intimidade que leva o filme a outro grau.

Em certos momentos, a ingenuidade de Frances lembra a maneira ensolarada como Poppy, protagonista de Simplesmente Feliz, de Mike Leigh, encara a vida, driblando as pequenas tragédias que cruzam seu dia-a-dia. No caso da personagem de Gerwig, umas das premissas do filme talvez seja como ela percebe que está sozinha mesmo quando está cercada, o tempo inteiro, por muita gente. Uma virada que começa quando sua amiga da época de colégio, vivida pela filha de Sting, Mickey Sumner, anuncia que vai se mudar do apartamento que dividem há anos. A maneira suave e sem pressa como o roteiro apresenta esta nova situação, levando a personagem a um caminho cheio de pequenas e grandes decepções, mas sem maniqueísmo, sem um excesso de consternação, que viraram carimbos para um certo tipo de cinema que se pretende sério, aumenta a sensação de desconforto, amplifica sua sensibilidade, porque Frances está mais próxima do que a gente poderia imaginar.

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[Frances Ha, Noah Baumbach, 2012]

Entrevista com Greta Gerwig

Este é seu quinto script para um longa-metragem. Você, inclusive, já dirigiu um filme. Como é a sensação de interpretar uma personagem que você criou?

O processo de interpretação ainda é o mesmo. Mas é incrivelmente divertido sentir que você fez parte de cada momento de criação do filme. É como quando um músico toca suas próprias canções ou quando um comediante conta suas próprias piadas. Isso satisfaz tanto seus desejos como autor quanto seus desejos como intérprete.

Seus pais no filme são interpretados por seus pais verdadeiros. Quando sua personagem “volta para casa”, ela volta para a cidade em que você nasceu, Sacramento. Você é Frances Ha?

Não, Frances é ficcional. Nós usamos meus pais verdadeiros e minha verdadeira cidade natal porque eu achei que isso poderia dar uma profundidade maior, uma especificidade que seria mais complicado de alcançar se tivéssemos usado atores.

Sua personagem vive cercada por muitas pessoas durante todo o filme, mas em certo momento ela percebe que está sozinha. Você diria que esta é a questão principal do filme?

É uma das questões do filme, mas eu não gosto de dar “respostas” em se tratando de sobre o que é o filme ou qual é sua principal questão. Como diz o ditado, é por isso que eu fiz o filme.

Uma das coisas de que eu mais gosto no filme é de como ele evita vários maneirismos do cinema indie norte-americano. Os personagens parecem possíveis, as situações são bastante reais. Algumas vezes, parece que você quis rir destes clichês. Isto foi intencional? Você escreveu Frances Ha com isto na cabeça?

Eu acho que clichês podem funcionar se você os explorar da maneira correta. Nas mãos certas, dá pra fazer qualquer coisa. Mas nós tentamos fazer o filme da maneira mais realista e genuína possível, o que incluia se manter bem afastados de modelos cansados.

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6 comentários sobre “Frances Ha + Entrevista Greta Gerwig”

  1. Assisti ontem e a magia do filme é traduzir de forma honesta e sutil questões complexas do ser humano (que talvez hoje estejam mais evidentes e em crise) como autoestima, espaço na sociedade e a carência por relações realmente humanas (autênticas). Saí leve do cinema e equilibrou o “espancamento” causado no dia anterior pelo “Uma Primavera com minha mãe” que junto com este, está entre os meus melhores do ano.

  2. Pulei a crítica porque ainda não vi ao filme, mas o parabenizo pela entrevista. Falar brevemente com Greta Gerwig deve ter sido um privilégio. Gosto demais dela, do seu talento autêntico para fazer gente como a gente e de sua beleza singela. Antes que se tornar um nome famoso, apostei que ela seria a nova Parker Posey. Feliz por isso estar se confirmando.

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