Era Uma Vez em Nova York

Em pouco mais de vinte anos de carreira, James Gray dirigiu apenas cinco filmes. Eis um cineasta que gosta de ter tempo para conceber projetos especiais que homenageiam o cinema clássico de seu país ao mesmo tempo que não se furtam em subverter lógicas e padrões deste mesmo cinema. Os filmes de Gray oferecem um humanismo raro que vem à tona em personagens de uma complexidade mais rara ainda. Em Era Uma Vez em Nova York – título brasileiro que tenta metabolizar o original mais singelo e sincero, A Imigrante -, o diretor faz um filme romântico que ironicamente desromantiza a terra dos sonhos. Gray filma a grande tragédia americana.

Marion Cotillard é a imigrante polonesa que chega aos Estados Unidos fugindo da Primeira Guerra Mundial para ser, em seus primeiros minutos em solo americano, separada da irmã doente. Joaquin Phoenix é o nova-iorquino que a ‘resgata’ de uma deportação arquitetada e oferece os meios para sobreviver no novo país. Um ponto de partida algo épico, cujos elementos e personagens são apresentados e desvirtuados simultaneamente. A grandiosidade da imagem em que os imigrantes olham para a Estátua da Liberdade é rapidamente substituída por um realismo quase steinbeckiano, com sua denúncia social emoldurada por um pessimismo que flerta com o lírico sempre que este namoro é permitido.

Esta última via ganha força quando o personagem de Jeremy Renner entra em cena. Ele é o ilusionista que reforça a promessa do sonho, enquanto Phoenix encarna a realidade mais dura. A imigrante de Cotillard se vê no meio de duas possibilidades bastante distintas, incompatíveis entre si, mas que se confundem o tempo inteiro. Não há heróis ou vilões, culpados ou inocentes no filme de James Gray porque o grau de nuances com que ele desenha seus personagens e a inteligência delicada com que dirige seus atores não permitem muitas simplificações. O trio de protagonistas captura essas orientações. Cotillard domina a primeira metade do filme com um minimalismo emocionante enquanto Phoenix cresce na segunda parte até tomar o longa para si.

A luz amarela e os enquadramentos especialíssimos criados por Darius Khondji, um diretor de fotografia que não impressionava havia muito tempo, reconstroem toda uma época, mas também servem de moldura para uma história pequena, aparentemente sem implicações fora de seu espectro. No entanto, essa história pequena narrada por James Gray funciona como espelho para as relações humanas de um país em construção, de uma futura megalópole que, em seu nascimento multiétnico, já insinuava a natureza devoradora de homens e sua tendência para envolver seus moradores na mais profunda solidão. Traduzir esses sentimentos de uma maneira tão lírica quanto desromantizada, numa saga de proporções mínimas, não é tarefa simples. James Gray fez uma obra-prima cujo plano final está entre as mais belas imagens que o cinema produziu.

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[The Immigrant, James Gray, 2013]

Comentários

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5 comentários sobre “Era Uma Vez em Nova York”

  1. Não achei o filme uma obra prima mas, apesar disso, considero muito boa a sua crítica. Acho que é um bom filme que se sustenta mais na ótima atuação dos protagonistas e na sua produção, do que no seu roteiro.

  2. O Joaquim Phoenix esta demais. Dois dos melhores filmes do ano foram com ele ; Ela de Spike Jonze e Era uma vez em NY de James Gray. Vicio Inerente vem aí.

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