Festival do Rio 2013: 6 filmes europeus

Bastardos

Bastardos EstrelinhaEstrelinha½
[Les Salauds, Claire Denis, 2013]

A trilha sonora de Bastardos, assim como a de alguns outros filmes de Claire Denis, é esmagadora. Ela parece sufocar os personagens e o espectador, mas neste novo filme a música toma proporções que assustam. É usada para reforçar o terreno em que o protagonista está pisando. A diretora preparou um carrossel de tragédias para Marco, vivido por Vincent Lindon, uma odisseia de desesperança que não encontra muitos pares no cinema atual. Denis destila seu pessimismo numa sucessão de eventos e descobertas, que ganham a forma de um thriller obscuro, prejudicado pela montagem confusa e por um certo desleixo do roteiro com alguns personagens importantes para arredondar a trama. O ponto forte do filme é mesmo sua ambiência. A cineasta cria um clima opressivo, de desconfiança, reforçado pela fotografia em tons escuros e pela citada música. Enquanto elas massacram quem assiste ao filme, Denis se perde em tentar amarrar as histórias paralelas.

Um Episódio na Vida de um Catador de Lixo

Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro Velho EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Epizoda u Zivotu Beraca Zeljeza, Danis Tanovic, 2013]

A fórmula é aquela consagrada pelos vizinhos romenos: atores não profissionais, câmera documental e uma vontade imensa de registrar a verdade. Numa mudança de tom, o bósnio Danis Tanovic adere ao docudrama para conseguir capturar o cotidiano dos personagens, uma família cigana, simples, que vive à sombra e das sobras da ex-Cortina de Ferro. Nazif Mujic, que ganhou o prêmio de melhor ator em Berlim, é colocado numa sinuca quando sua mulher sofre um aborto espontâneo e ele, sem dinheiro, precisa enfrentar o sucateado sistema de saúde de seu país. Mesmo que o título, Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro Velho, particularize a situação, o longa é muito mais uma observação sobre o fracasso do socialismo na Europa Oriental e do impacto deste fracasso sobre os habitantes dos países que encontram na sucata não apenas o sustento, mas uma metáfora para sua própria condição.

Michael Kohlhaas

Michael Kohlhaas EstrelinhaEstrelinha½
[Michael Kohlhaas, Arnaud des Pallières, 2013]

Michael Kohlhaas (1881), o livro favorito de Franz Kafka, se baseou na história real de um homem que decidiu enfrentar a tirania dos nobres que o enganaram em busca de justiça. Depois de esgotar todas as possibilidades para resolver a questão, o personagem real, assim com o do livro, criou uma horda composta por criminosos e espalhou o terror pela região onde vivia, no melhor estilo Robin Hood. A novela influenciou a literatura e a política da época e este peso histórico parece ter contaminado o longa de Arnaud des Pallières. Embora plasticamente o filme pareça ser naturalista, Michael Kohlhaas, o filme, é refém do tom solene imposto pelo diretor, da primeira à cena final. O cineasta entende a grandiosidade do tema como material para um “blockbuster de autor”, como definiu o Le Monde. Essa moldura barroca, que vai desde a luz natural até a interpretação dos atores, empresta uma sisudez que parece estar um tom acima do filme, mas que combina o terreno rochoso em que vivem os personagens.

Nós Somos os Melhores!

Nós Somos os Melhores! EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Vi Är Bäst!, Lukas Moodysson, 2013]

Faz tempo que Lukas Moodysson estava em débito. Desde o solar Bem-Vindos, no distante ano de 2000, o diretor sueco não assina um filme minimamente interessante. Nós Somos os Melhores! vem suprir esta lacuna, com a história de três meninas – Bobo, Kiara e Hedvig – que, no improviso, resolvem criar uma banda de rock. A época é o início dos anos 80 e as protagonistas são, cada uma seu modo, fora dos padrões. Duas não aceitam que o punk já passou e a terceira é uma nerd que toca música clássica nos recitais da escola. O encontro das três resulta num rock meio grotesco em que elas liberam sua fúria juvenil, principalmente na música “Odeio Esportes”, uma resposta ao professor de educação física. Mesmo que trate de dilemas adolescentes, bullying e conflitos familiares, o cineasta – adaptado uma graphic novel escrita por sua mulher, Coco – dá agilidade e fluidez à trama, construindo as personagens com delicadeza, aprofundando seus dramas, mas sem vitimá-las. As meninas estão ótimas e sabem aproveitar o tom leve para cair na brincadeira.

Quando a Noite Cai em Bucareste

Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Când se Lasa Seara Peste Bucuresti sau Metabolism, Corneliu Porumboiu, 2013]

O novo filme de Corneliu Porumboiu é um exercício de metalinguagem. O diretor do ótimo Polícia, Adjetivo recicla a estética de seus trabalhos anteriores com uma câmera fixa que emoldura longos diálogos na história sobre a relação entre um diretor de cinema e a protagonista de seu filme – e sua amante. Observador da rotina, o cineasta mais uma vez utiliza a repetição para costurar sua linguagem, reprisando aqui especialmente o ensaio de uma das cenas do longa que os personagem rodam. A primeira conversa remete a Dez, de Abbas Kiarostami, com os dois protagonista percorrendo a cidade de carro. A câmera é colocada nas costas deles enquanto os dois divagam sobre o futuro do cinema, romeno ou não. Pela boca de um deles, Porumboiu fala sobre as vantagens do cinema digital enquanto afirma que foi formado pelas limitações da película, como se tentasse justificar algum tropeço, mas no fim o diretor parece elogiar a longevidade da arte que resolveu abraçar.

Sonar

Sonar
[Echolot, Athanasios Karanikolas, 2013]

Um grupo de amigos se reúne para homenagear um companheiro morto. O ponto de partida é o mesmo de diversos longas, mas o diretor Athanasios Karanikolas evita refilmar O Reencontro pela enésima vez. No entanto, para trazer seu diferencial para a questão, ele apela para devaneios estéticos que se alternam com minimonólogos em que cada personagem conta um pouco de sua relação com o amigo morto. A combinação destas duas propostas não funciona muito bem. A festa, em que a turma celebra a vida e se despede do colega, tem muitas cenas sem diálogos, filmadas muito bem, em que o movimento dos corpos sem muita explicação termina anestesiando a necessidade de um roteiro, mas esses delírios plásticos são interrompidos pelas “entrevistas” e o resultado fica bagunçado de novo.

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