Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 12

À Sombra de uma Mulher

À Sombra de uma Mulher EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[L’Ombre des Femmes, Philippe Garrell, 2015]

O último longa de Philippe Garrel é bem mais simples do que a maior parte de seu cinema, o que pode frustrar o espectador que conhece a complexidade de sua obra. À Sombra de uma Mulher é um drama sobre como a infidelidade revela padrões de comportamento do homem e da mulher. Depois de três longas estrelados pelo filho, o diretor reserva a Louis Garrel o papel de narrador da história sobre um casal de documentaristas que começa a se interessar sexualmente por outros parceiros, mas que reagem de maneiras distintas quando seus casos extraconjugais são descobertos. Em apenas 72 minutos, no belo preto-e-branco habitual, o diretor leva as personagens para passear pelas ruas de Paris, num roteiro coescrito pelo maestro Jean-Claude Carrière, enquanto discute de maneira supreendentemente leve como homem e mulher reagem de maneiras diferentes a questões sentimentais. Clotilde Courau está excelente e Stanislas Merhar revela a fragilidade de Pierre.

Blood of My Blood

Blood of My Blood EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sangue del Mio Sangue, Marco Bellocchio, 2015]

Mesmo quando o filme não é um de seus melhores, Marco Bellocchio prova seu talento na direção. Aqui ele surpreende o espectador ao fazer com que a história central, passada no século XVII, ganhe ecos nos dias de hoje, no mesmo cenário. O conto de época é uma denúncia do diretor sobre o abuso de poder e a violência da igreja, que tortura uma religiosa para que ela confesse seus pecados, entre eles o de ser amante de homem que se suicidou. Bellocchio impõe um clima de terror à história que se dissolve no segundo ato, em que um empresário russo tenta comprar o monastério onde aconteceu a tortura, hoje abandonado e ocupado por um conde fugitivo que pode ser um vampiro. As histórias parecem ter pouco a ver e a passagem entre elas é bem brusca, mas Bellocchio é um diretor de muitas habilidades e resolve usar os mesmos atores para criar um elo entre as duas. Consegue torná-las ambas interessantes, embora a primeira seja bem mais atraente e o simples fato de ser livremente inspirado no episódio real da “freira de Monza” aumente a curiosidade sobre ele.

Cinco Graças

Cinco Graças EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mustang, Deniz Gamze Ergüven, 2015]

Cinco Graças é um belo filme e um belo filme feminino também. Um belo filme porque a diretora Deniz Gamze Ergüven, que assina seu primeiro longa-metragem, realmente conseguiu capturar o espírito ingênuo e libertário das personagens e traduzir esse espírito em imagens bonitas e bastante simbólicas. Um belo filme feminino porque, além de uma diretora-roteirista, tem uma corroteirista (a também cineasta Alice Winecour, de Transtorno) e cinco protagonistas adolescentes. O senão em relação ao filme é que todas as apostas de Ergüven são seguras: estamos diante de mais uma história étnica e de fundo cultural e religioso sobre casamentos arranjados e violência dentro de casa. Não há risco algum nem se acrescenta muito a um assunto retratado tantas e tantas vezes no cinema e que atende a um público muito específico, o das salas de arthouse. O roteiro, muito calcado em reproduzir detalhadamente o cotidiano daquela família, tenta diluir os estereótipos, mas eles estão todos lá, envoltos por uma fotografia que explora com muita inteligência a luz natural e a beleza das meninas. O filme é o indicado da França para o Oscar, mas ele é qualquer coisa, menos um filme francês: conta uma história turca, em turco, na Turquia, com diretora e elenco turcos, o que só confirma a teoria de cinema de exportação.

O Clã

O Clã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[El Clan, Pablo Trapero, 2015]

Pablo Trapero já foi um cineasta mais autoral, mas depois de uns tropeços feios (Abutres, sobretudo) volta à velha forma e entrega um filme onde tudo parece no lugar. O cineasta adapta a história real de uma família responsável por sequestros violentos na Argentina entre o fim dos anos 70 e o começo dos 80. Capricha na reconstituição de época, encontra bons intérpretes para suas principais personagens e mantém um ritmo sempre interessante para uma história que, por si só, é suficientemente boa, ainda mais por ter realmente acontecido. O filme já é o mais visto do país neste ano e vai representar a Argentina no Oscar. Embora venda a família como protagonista do filme, Trapero trata a trama como um duelo de amor e ódio entre patriarca e herdeiro, com a sedução pelo dinheiro tão importante quanto o embate ideológico. Guillermo Francella, o coadjuvante adorável de O Segredo dos Seus Olhos, compõe uma personagem assustadora como o chefe do clã. Está aterrorizante em alguns momentos, embora caia na caricatura aqui e ali. Sua química com Peter Lanzani, que vive o primogênito da família, é bem eficiente, embora Francella naturalmente devore todos em volta. A escolha por privilegiar estas duas personagens é meio óbvia para desenvolvê-los ao máximo, mas deixa os outros membros da família meio de escanteio. O diretor usa flashbacks e flashfowards para criar uma dinâmica própria para a montagem. Funciona bem, mas não sai muito do padrão. A cena final, sem cortes e impressionante encerra um trabalho competente no cinema comercial argentino.

A Obra do Século

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[La Obra del Siglo, Carlos Quintela, 2015]

A ingenuidade que aparece em alguns momentos de A Obra do Século, principalmente no final, em forma de “mensagem”, não tira o brilho deste verdadeiro achado no meio de uma cinematografia latino-americana cada vez mais cheia de trejeitos. O segundo longa do cubano Carlos Quintela recupera um episódio perdido no meio da Guerra Fria entre União Soviética e Estados Unidos, que teve em seu país um de seus principais coadjuvantes. Em 1980, os soviéticos iniciaram a construção de um projeto faraônico de uma usina nuclear na província cubana de Cienfuegos, mobilizando um gigantesco número de trabalhadores para morar em torno da planta numa cidade especialmente criada para este fim. Quintela utiliza imagens reais para mostrar que, poucos anos depois, com o fim da Guerra Fria e o acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, o projeto foi abandonado pela metade e o lugar virou uma cidade fantasma. É nesse ambiente que o cineasta caracteriza como uma terra pós-apocalíptica, que surge uma história de ficção sobre pai, filho e neto que ainda vivem no local, sobrevivendo das memórias e da esperança de alguma mudança. Quintela utiliza alguns truques meio óbvios para dar mais peso dramático para a história, que é rodada em preto-e-branco enquanto o found footage é em cores, e alternando planos abertos nas cenas que mostram a cidade deserta e enquadramentos fechados dentro do apartamento da família. Mas essa ingenuidade não diminui o impacto de um filme sobre um lugar esquecido no tempo e riscado da história, que olha para trás com saudades de um regime que ficou para trás.

Paulina

Paulina EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Patota, Santiago Mitre, 2015]

Paulina ganhou o prêmio da Semana da Crítica em Cannes muito por causa das polêmicas que alimenta em relação à violência sofrida por sua protagonista. Santiago Mitre, roteirista de três filmes de Pablo Trapero, sabe bem como levar os dilemas ao extremo, alimentando cada situação com uma postura discutível de sua protagonista, que ganhou uma ótima intérprete em Dolores Fonzi. Um dos pontos delicados do longa é quando percebemos o quanto Mitre é afeito a truques: ele abre o filme com uma discussão ideológica entre pai juiz e filha, que quer largar uma carreira promissora para fazer trabalhos sociais numa região pobre, afastada dos grandes centros. Esse dilema parece que vai estar na espinha dorsal da trama, mas Mitre transfere as discussões para uma questão mais impactante, a da violência sexual. Aborda todos os aspectos e tenta frustrar as expectativas do espectador com comportamentos e reações de Paulina. Um jogo um tanto maniqueísta, mas ainda assim interessante.

Per Amor Vostro

Per Amor Vostro Estrelinha
[Per Amor Vostro, Giuseppe M. Gaudino, 2015]

O ponto forte de Per Amor Vostro, se é que existe algo que possa receber essa classificação, é a cara-de-pau ousadia do diretor Giuseppe M. Gaudino em dar cabo de todas as ideias que teve por mais absurdas que elas possam parecer. O cineasta tem uma carreira como documentarista, mas só havia assinado um longa de ficção antes desse, no ano distante de 1997. A sede por dirigir um não-documentário deveria ser tanta que Gaudino resolveu não abriu mão de nada que imaginou: temos um filme em preto-e-branco com algumas cenas coloridas; efeitos visuais e sonoros em profusão; algumas sequências de imagens e símbolos que remetem a várias religiões e mitologias; personagens que são apresentados pela letra de uma música no melhor estilo dos filmes baseados em cordel; e um melodrama de excessos tipicamente italiano amarrado a uma história de máfia. Valeria Golino interpreta Anna Ruotolo, uma protagonista que sofreu e sofre tudo o que Deus pode impor a uma mulher sofredora (foi preterida pelos pais em relação ao irmão irresponsável, mas agora tem que cuidar deles; respondeu por um crime que não cometeu; tem um marido extremamente violento) que começa a trabalhar no cinema, o que abre as portas de seus devaneios para mudar de vida. Golino ganhou a Copa Volpi de melhor atriz em Veneza por este trabalho. Um exagero. Assim como cada milímetro deste Per Amor Vostro.

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