Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 4

Dope

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[Dope, Rick Famuyiwa, 2015]

Dope é uma deliciosa Sessão da Tarde. Com drogas, mas uma Sessão da Tarde. E grifo no “deliciosa”. O filme de Rick Famuyiwa tem na lista de produtores Sean Combs, Forrest Whitaker e Pharrell Williams, que assina uma das músicas. Se sobrou dinheiro, não faltaram elementos para fazer o filme funcionar nas bilheterias. Apesar de ser um filme black, Dope é bastante universal: é uma daquelas comédias de aventura em que o protagonista se mete numa enrascada por engano e passa o filme todo tentando resolver o problema. Para manter o “sotaque”, tem palavrões na medida certa. Para manter a ingenuidade, os personagens principais não estão nada interessados na montanha de droga que foi parar nas mãos deles. Mesmo assim, limpinho, o filme conquista facilmente com um humor incessante, que brinca com a mitologia do universo pop black, desfila referências e remonta às comédias de situação de outros tempos. Shameik Moore é um talento. E faz um trio afinado com Kiersey Clemons e Tony Revolori, de O Grande Hotel Budapeste. É inofensivo, mas guarda sua pimenta para criar um belo diferencial como na montagem espertinha que às vezes parece simular um DJ discotecando.

Não é um Filme Caseiro

Não é um Filme Caseiro EstrelinhaEstrelinha½
[No Home Movie, Chantal Akerman, 2015]

Que ninguém espere um novo Jeanne Dielman porque este filme de Chantal Akerman é justamente o que o título diz que ele não é. A cineasta que vive viajando o mundo resolveu filmar a mãe, Natalia, já bem idosa, a cada retorno seu para a Bélgica. Os encontros são gravados sem que a diretora apareça em primeiro plano – ela quase sempre está de costas ou em off – e mostram a rotina da mãe, entre refeições, sonecas e conversas cotidianas. Tudo é gravado no apartamento onde ela mora, em Bruxellas. A cada cena, Akerman parece que vai abrir um pouco da vida de sua família, mas termina muito mais mostrando que o estado de saúde de Natalia está gradativamente mais frágil. Em alguns momentos, a diretora parece expor até agressivamente a mãe, como quando ela a acorda apenas para sorrir para a câmera, mas na maior parte do tempo é como se Chantal quisesse se preparar para uma despedida. As longas cenas de paisagens e estrada que cortam os encontros com a mãe incomodaram bastante o público da sessão, mas parecem ser a forma da cineasta explicar a distância e a saudade que sente de Natalia.

Tangerina

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[Tangerine, Sean Baker, 2015]

Tangerina é como se fosse um filme de John Waters sem a escatologia. Para se aproximar das personagens, Sean Baker filma tudo com um iphone e mantém um estilo documental quase amador para filmar Sin-Dee e Alexandra, fazendo com que o espectador fique bem próximo delas e de sua realidade. Baker não tem pudores em assumir tiques, expressões, gírias e um modo de ver o mundo das transexuais que trabalham nas ruas de Los Angeles, o que deixa tudo muito mais verdadeiro por mais fake que as interpretações ou o fiapo de roteiro sejam. O filme acompanha uma trans que acaba de sair da cadeira e descobre que seu namorado está pegando outra. É aí que o filme lembra John Waters que tinha aquela capacidade esplêndida de tornar tudo tão baixo e tão vivo, elegendo figuras à margem como protagonistas e nunca menosprezando suas questões que podem parecer mundanas ou banais demais para a família tradicional. Com seu namoro como este universo invisível, Baker faz um filme político baixo, mas de primeira grandeza. Tangerina é um sopro de vida no cinema indie americano que anda cada vez mais industrial.

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