Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 9

A Academia das Musas
A Academia das Musas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Academia de las Musas, José Luís Guerín, 2015]

A Academia das Musas transita por vários níveis de cinema. Os créditos, a câmera e as cenas iniciais vendem um documentário sobre um professor de filologia que debate com seus alunos em sala de aula o amor, a arte e a inspiração. Para Raffaele Pinto, o amor é uma criação dos poetas e as musas são essenciais para que os artistas produzam seus conteúdos intelectuais, o que gera uma discussão em especial com suas alunas, que vêem nesta condição da mulher como objeto do desejo uma postura machista que reproduz séculos de cultura patriarcal. Como debate intelectual, o filme pode ser delicioso para quem se interessar pela verborragia interminável dos discursos entre professor e estudantes, entre os alunos, e entre o mestre e sua esposa, em casa. As discussões acontecem de maneira tão orgânica quanto Guerín dispõe sua câmera, quase um outro personagem no filme, que fica íntima dos interlocutores acompanhando cada tópico dentro da classe ou através dos vidros da casa, do carro e da cafeteria para onde os debates migram naturalmente. E, deste mesmo modo natural, quando amplia o espaço da palavra, quando leva teorias e conceitos para fora da sala de saula, o diretor transforma seu próprio filme, que incorpora suas discussões à própria vida e, de maneira quase invisível, transforma aquelas pessoas em personagens e aquele documentário vira uma ficção, que vai explorar as mesmas ideias debatidas nas aulas, levando-as a cabo, registrando na prática o que se debateu no verbo: toda mulher tem o desejo e a obrigação de ser uma musa? O amor existe ou é invenção da arte? A perguntas como essas, Guerín adiciona pelo menos mais dumas: o que é vida e o que é simulacro? Onde termina o registro e começa a criação?

O Fim da Turnê

O Fim das Turnê EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The End of the Tour, James Ponsoldt, 2015]

Recriar personagens reais sempre será um dilema para o cinema já que reverenciar um artista é mais fácil do que enxergá-lo como um ser humano comum e uma personagem com funções específicas dentro de um roteiro. Mas James Ponsoldt faz isso de maneira delicada em O Fim da Turnê, em que conta a história verdadeira do encontro entre o repórter da Rolling Stone David Lipsky com o escritor David Foster Wallace. O cineasta se livra de alguns maneirismos indies de seu último filme, o correto O Maravilhoso Agora, para tocar um projeto mais abrangente, que tem um público um pouco maior em mente. A dupla de protagonistas acompanha a transformação do diretor: é o primeiro filme em que Jesse Eisenberg não interpreta Jesse Eisenberg em anos e Jason Segel abre mão dos trejeitos das comédias que costuma estrelar para compor uma personagem fascinante, difícil mesmo, porque vive numa linha muito tênue entre a condescendência para com o escritor real e a infantilização já que Wallace era um homem de muitas delicadezas e ingenuidades. Mas o tom encontrado é outro: Ponsoldt mostra como Lipsky ficou encantado pela simplicidade da mente naïve do escritor e o trabalho excepcional de Segel faz com que o espectador compartilhe esse encantamento com ele. A cena pós-créditos é tão ingênua quanto Wallace parecia ser, não significa muita coisa para a história do filme, mas diz muito mais coisas sobre a história do homem.

The Lobster

The Lobster EstrelinhaEstrelinha
[The Lobster, Yorgos Lanthimos, 2015]

Yorgos Lanthimos continua firme em sua meta de denunciar a demência do ser humano – sendo demente. Se Dente Canino foi visto como uma alegoria do estado de espírito da Grécia, agora o problema é mundial. Nesta comédia romântica de ficção-científica passada num futuro não muito distante, Colin Farrell, que acabou de ficar solteiro, e é levado para um hotel onde terá um prazo para arrumar um par ou ser transformado num animal para sempre. Lanthimos não leva muito a sério sua proposta e reforça o ridículo de cada uma de suas opções para depois querer cobrar do espectador uma parceria num suposto “estudo sobre os relacionamentos humanos”. Como as personagens de seus filmes, o cineasta parece acreditar que um sistema de punições é o que movimenta o mundo, mas a reflexão morre aí. Há cenas engraçadas aqui e ali, mas o sarcasmo demente de Lanthimos parece não passar do primeiro efeito. E boa parte das piadas não tem muita graça. Pena que ele tenha que arrastar bons atores como Farrell, Rachel Weisz e Lea Seydoux para chegar a uma conclusão tão lugar comum.

Sem Ar

Sem Ar Estrelinha
[Tiempo Sin Aire, Andrés Luque & Samuel Martín Mateos, 2015]

O fato de ser um filme rodado nas Ilhas Canárias talvez seja o único motivo realmente decente para recomendar Sem Ar, mesmo que o longa mostre muito pouco do arquipélago espanhol na costa da África e se concentre em ser um dos exercícios mais maniqueístas e auto-indulgentes sobre uma mulher que sofre com os efeitos de uma “guerra civil”. Os diretores partem de um episódio de extrema brutalidade envolvendo o abuso de poder militar na Colômbia para contar a história da procura obsessiva da protagonista por um homem de seu passado. A identidade dele e os motivos dela são mantidos em sigilo. As pistas são dadas aos poucos, com flashbacks explicativos revelando traumas e culpas.Os cineastas costuram as linhas temporais de modo que cada volta ao passado traga uma revelação para a trama, disfarçada em alguns desvios dramáticos que têm por objetivo aumentar as surpresas. Fatalista, fotografado com filtros que gritam que as cenas são flashbacks, maneirista. Nada se salva.

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *