[festival do rio – boletim quatro]

[fora do jogo ]
direção: Jafar Panahi.

Offside, 2006. A meu ver dá um novo vigor ao recente cinema iraniano que andava meio inerte depois de alguns surtos de criatividade. Panahi faz um filme sobre futebol – ou melhor, sobre o amor ao futebol – sem mostrar futebol. Faz um filme dentro de um estádio sem mostrar o campo. O fascínio está no texto, na expectativa das garotas barradas quando tentavam entrar disfarçadas. A partir disso, o diretor se dedica a questionar tradições, hábitos e costumes. Mas o que importa mesmo é que o Irã foi para a Copa do Mundo!

Com Sima Mobarak Shahi, Safar Samandar, Shayesteh Irani, M. Kheyrabadi, Ida Sadeghi.

[a rainha ]
direção: Stephen Frears.

The Queen, 2006. Competente relato de Frears sobre a semana seguinte à morte da princesa Diana no Palácio de Buckingham. Como era esperado, Helen Mirren está maravilhosa, mas sem picos de explosão como se espera das grandes interpretações (e cuja ausência talvez faça desta uma grande intertpretação). O filme tem o tom frio da nobreza britânica e, mais do que crítica à família real, é uma ode à princesa morta. As inserções documentais enriquecem o contexto, mas, de certa forma, enfraquecem a dramaturgia. É um filme bom, sem dúvida, mas não é tão grande quanto queriam.

Com Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Sylvia Sims.

[os infiltrados ]
direção: Martin Scorsese.

The Departed, 2006. A gente ouve cada coisa. A sessão era de Hollywoodland, mas o comentário é sobre Scorsese. Dois caras que pareciam escrever sobre cinema conversavam e um deles soltou a frase: “o Scorsese começou a fazer bobagem em Cassino“. A gente lê cada coisa. Comprei e última SET, com o filme novo do diretor na capa e logo na abertura, vem o seguinte comentário: “Os Infiltrados é cinema-porrada”. Enfim…

Os Infiltrados é o melhor filme de Martin Scorsese desta década. É melhor do que O Aviador, é melhor do que Gangues de de Nova York, e provavelmente bate todos filmes dele dos anos 90, à possível excessão de Os Bons Companheiros. Scorsese volta a um mundo que lhe é muito caro, o da máfia, mas desta vez os espaços estão maiores e sua ordenação das coisas está mais orquestrada. Discordo completamente das críticas à montagem, acho que ela funciona em prol de como o filme foi pensado, como refilmagem mesmo de um filme de ação oriental, com sua lógica própria de flashbacks, cenas curtas e longas se revezando. Existem muitas cenas em que isso está evidente. Eu gosto bastante da arrumação das cenas, da duração dos planos. E para seus detratores, Leonardo Di Caprio está ótimo, completamente De Niro, sem isso ser demérito. E Jack Nicholson, que sempre se repete, faz isso de novo, mas desta vez sua repetição é soberba.

Com Leonardo Di Caprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Vera Farmiga, Ray Winstone.

[palácio de verão ]
direção: Lou Ye.

Summer Palace, 2006. Estes filmes que tentam refletir situações políticas em comportamentos ou relacionamentos deveriam ter mais cuidados para que, como este Palácio de Verão, não se transformem em melodrama banal, o que, em muitas cenas, este filme é. As personagens, perdidas, anestesiadas, nunca ganham dimensão real, ficam no plano de um existencialismo oco, barato. Imagino a dificuldade que o diretor teve para filmar a confusão na Praça Celestial, mas cadê o menino enfrentando os tanques, a imagem mais linda do século passado?

Com Hao Lei, Guo Xiaodong, Hu Ling, Zhang Xianmin.

Comentários

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8 comentários sobre “[festival do rio – boletim 4]”

  1. Melhor que a obra-prima Gangues de Nova York ? Só vendo mesmo para crer. Mas pode ter certeza que esse seu comentário jogou minhas expectativas quanto ao filme do Marty, que já eram altas, na estratosfera. Agora vem a parte mais difícil: esperar chegar aqui em JF …

  2. eu estava com uma sensação que você iria dar “10” para o filme do Scorsese. Li tanta coisa sobre que, mesmo não sendo lá grande fã do diretor, quero assistir. E para mim, Little Miss Sunshine continua sendo o melhor filme do ano que não assisti (ainda);
    Bjo querido. Nos vemos em SP.

  3. Viu “The Departed” no Palácio, Chico?

    Ao começar o filme, pensei: “Lá vem o Jack Nicholson e a repetição de sempre”. Ao final, tive a mesma sensação que você. Que repetição sensacional!!!

    Leonardo di Caprio também está muito bem. Matt Damon fica meio apagado perto dos outros dois.

    Muito bom o filme. Muito divertido. Não percam. Bom, eu sei que ninguém vai perder…

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