Gravidade

Provavelmente nenhum texto será capaz de dar conta da complexidade do trabalho de Alfonso Cuarón em Gravidade. Em seu novo filme, o cineasta mexicano atinge algo bem próximo à maestria em diversos níveis. Não se trata apenas uma ficção-científica ou de filme-espetáculo, o longa é também um exemplo de domínio técnico irrestrito, de manipulação de timing, de administração da tensão, muitas vezes física, de confecção de dramaturgia, que dá um peso extra às cenas de ação, e de direção de atores, especificamente de uma atriz.

Os talentos de Cuarón vêm sendo revelados ao longo dos anos, mas nunca estiveram tão concentrados num filme só. Gravidade é uma obra para iniciados, mas com linguagem universal. É um deleite para fãs do cinema e não apenas de um gênero. E, mais do que tudo, é um filme que preza pelo conjunto. O roteiro, que o diretor assina com o filho Jonás, é de uma sofisticação dramatúrgica raramente vista nos confins do espaço, onde a preocupação com engenhocas tecnológicas e invasões alienígenas geralmente é bem maior do que com dar textura para os personagens.

O espaço para Cuarón é a extensão de nosso planeta, por isso o cineasta faça questão de manter um tratamento realista para tudo o que acontece na tela. Embora seja completamente virtual, Gravidade é um filme perfeitamente possível. A ousadia na escolha do cenário – ao mesmo tempo amplo, mas completamente limitado quando se tem em conta que os personagens estão flutuando sobre a Terra – o diretor resolve com sua multiplicação. O roteiro costura a introdução de cada novo set, cujo revezamento acompanha a dinâmica do próprio longa.

A concepção visual é sem precendentes. Cuarón supera qualquer trabalho anterior em relação a efeitos visuais e adaptação para 3D. As cenas “externas” são verdadeiros balés, com atores e a “câmera” realizando acrobacias ininterruptas na nossa frente. A fotografia do grande Emmanuel Lubezcki, além de escandalosamente bonita, tem preocupação em tornar tudo extremamente crível. O filme inteiro é delicioso e aterrorizante de se ver. A montagem tem culpa neste terror porque sempre funciona em favor da tensão, sem recorrer a truques. O espectador acompanha tudo em tempo real e na intensidade original.

Durante seus 90 minutos, o filme é uma sucessão de longos momentos de tensão, que não dão respiro para o espectador, muito menos para a protagonista. Sandra Bullock tem aqui o melhor momento de sua carreira, não apenas por aparecer em todas as cenas do filme, mas por oferecer uma interpretação surpreendente para alguém conhecida por xaropes melodramáticos e comédias abobalhadas. Está séria, econômica, contida, sem exageros, funciona perfeitamente por si mesma e de acordo com a engrenagem do filme. Merece muito mais o Oscar do que quando ganhou, há três anos. Para Cuarón, a luta de sua personagem pela sobrevivência é uma maneira de refletir sobre solidão, destino e responsabilidades. E, mais do que isso, sobre os limites – físicos ou não – de cada um.

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[Gravity, Alfonso Cuarón, 2013]

Comentários

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13 comentários sobre “Gravidade”

  1. Simplesmente fantástico. É um filme simples em termos de enredo, mas complexo em termos técnicos, emocionais e visuais. É na verdade um “anzol” que fisga e te prende na frente da tela sem dar chance sequer pra vc respirar. Vc deixa de perceber que está assistindo um filme e se sente um coadjuvante do ônibus espacial! Poucos filmes me deixaram tão impressionados como esse.

  2. Chico, passei pra ver o que você tinha achado. Vi agora pela primeira vez! Belo, simples, possível e solidão, limite, acaso, possibilidade, superação…os momentos intensos de silêncio e as imagens deslumbrantemente sequenciadas … tudo isso. Bom texto, o filme é realmente muito bem orquestrado, gostei muito!

  3. Revi o filme e alguns incômodos desapareceram. Que bom, acho que a velocidade da câmera não deu tempo de me ater aos pequenas detalhes da 1º vez que assisti, agora não me preocupei com legendas e com história apenas com a sensação que o filme passa, e o resultado foi ótimo.

  4. Assisti o filme e achei uma das maiores experiências cinematográficas em termos de técnica, tensão, direção e concepção visual. A capacidade de Cuarón de utilizar de forma criativa a camera em planos sequencia atingi seu ápice neste longa. Porem há certas coisas que incomodam (talvez uma revisão futura as desfaça). Os diálogos são simplistas e sem inspiração, o personagem de Clooney é um galã espacial (o mesmo de sempre alias) e não confere veracidade ao personagem (vemos George Clooney sendo ele mesmo e não um astronauta) e faltou um “Q” filosófico, subjetivo, um respiro até mesmo religioso que todos temos a beira do inevitável. Mas parece que nada disso o incomodou Chico ?

    1. Cristian, eu enxerguei muito desse “q” filosófico no filme. A “visão” da Ryan foi um momento que me trouxe lágrimas nos olhos, inclusive. Alguns diálogos realmente são simplistas, apenas para explicar o que está acontecendo, mas outros achei sensacionais. Quando o George Clooney se afasta da Ryan e diz “you have to let it go”, ele não está falando apenas dele, mas também da filha dela. Enfim, eu achei bem satisfatório sim. E a questão religiosa aparece nas imagens de Jesus e depois de Buda (?).

    2. Cristian, eu concordo com o Eduardo. Percebi essa filosofia de que você sentiu falta ao longo de todo o filme. Não acho os diálogos simplistas, acho-os simples. As questões da solidão, da perda, da superação, do lugar no mundo estão todas lá, mas talvez num texto mais simples do que você queria. O papel e a interpretação do Clooney não me incomodaram. Acho que a função dele no filme é justamente ser uma escada para a Sandra Bullock. É através das palavras de um galã brincalhão que saem as verdades que ela precisa ouvir.

  5. Verei o filme na quarta-feira a noite e amei a crítica, estava em dúvida se veria esse mesmo, mas agora é certeza, sou super fã da Sandra e de quando ela faz papéis mais sérios, espero que quarta chege logo.

  6. Chico, tem sido uma delícia ler reviews deste filme. É lindo ver um filme derrubar especialistas em críticas – geralmente pautadas pela razão (como tem que ser) – se deliciarem e se renderem deste jeito. O Sadovski estava incontido na crítica dele, me fez correr pra cá e ver o que você diria. Estou ansioso pelo filme – que duvido chegar no cinema aqui – mas só estes textos tem sido ótimo. Belíssima crítica.

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