La Jaula de Oro

Se os cineastas mexicanos parecem viciados num cinema extremamente violento, que conquistou fãs mundo afora por apostar na repulsa como forma de expressão, La Jaula de Oro pode apontar novos ares para a produção cinematográfica do país, que precisa urgentemente desta renovação. Diego Quemada-Díez, um estreante em longas metragens que trabalhou como operador de câmera para Alejandro Gonzalez Iñarritu e Fernando Meirelles, encontrou uma forma de extrair lirismo de uma história dura, filmada de maneira realista, mas sem afetação.

A câmera inquieta do cineasta encontra Juan, Sara e Samuel, três adolescentes desiludidos com a vida miserável nas favelas da Guatemala, três jovens que sonham em transformar suas vidas nos Estados Unidos. Para isso, embarcam numa jornada através do México, que separa sua terra natal de seu objeto do desejo. No meio do caminho, conhecem Chauk, um índio da idade deles que, sem falar a mesma língua que o trio, resolve se unir ao grupo. Juntos, eles partem numa travessia que revela a desesperança de uma multidão.

Quemada-Díez, espanhol de nascimento, desenha uma América Central pronta para fazer as malas. O desenraizamento, mais do que uma questão cultural, mais do que ser o resultado da era global, é imposto pela necessidade de sobreviver. Ao mesmo tempo em que, a cada parada dos protagonistas, constrói essa imagem devastadora da região, o cineasta desenvolve cada um de seus personagens e as relações entre eles. Trabalha com estereótipos, mas se afasta do óbvio. Trata cada uma daquelas crianças com carinho apesar de submetê-las às mais variadas provas. Despede-se de quem fica pelo caminho com dignidade.

“La Jaula de Oro” também é o título de uma música “ranchera”, escrita por Enrique Franco, compositor que nasceu no México, mas se naturalizou norte-americano. A letra trata da imigração para os Estados Unidos e já serviu de inspiração para um filme nos anos 80. Apesar de não ser uma adaptação da canção, que é sobre um mexicano que já vive no “exílio”, o longa de Quemada-Díez, que é um dos finalistas ao prêmio principal da Mostra de Cinema de São Paulo – e tem chances -, herdou seu espírito triste e inconformado.

O estilo documental com que o diretor filma dribla a inclinação que filmes protagonizados por personagens adolescentes têm para seguir fórmulas. O roteiro, ao assumir esse compromisso realista, foge do modo esquemático, mesmo quando retrata rivalidades internas e demonstrações de amizade. O elenco, acertadíssimo, reafirma esta tendências. Todos aqueles personagens são plausíveis, todos aqueles destinos são possíveis. La Jaula de Oro explica para os defensores do cinema espetacularizado que o México tem praticado que as algumas das tragédias mais dolorosas acontecem sem alarde.

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[La Jaula de Oro, Diego Quemada-Díez, 2013]

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