Malévola

Minha sobrinha Julia não gostou muito quando eu dei para ela numa boneca de Merida, a protagonista de Valente, lançado pela Pixar dois anos atrás. Ela não quis que eu ficasse chateado por isso não explicou muito o desinteresse, mas uma frase – meio exclamação, meio interrogação – me demoveu da ideia de que Juju, do alto de seus 9 anos já estivesse passando da fase das bonecas. “Como assim ela não quer ser uma princesa?”, questionava a minha sobrinha, tentando entender o comportamento de uma personagem num filme que parecia tão convencional.

Julia estava sendo coerente com um pensamento que se tornou padrão desde o começo do século passado: o pensamento de que a princesa se tornou o papel feminino primordial na ficção desde que a Disney trouxe Branca de Neve dos contos de fada para um o imaginário bem mais popular. Não sabia minha sobrinha, nem muitas pessoas que viram Valente como mais um “desenho animado” de princesas, que assistiam um dos filmes mais silenciosamente revolucionários dos últimos tempos.

Merida é categórica em rasgar o manual Disney para sua classe. Ela refuta os ritos e a tradição das princesas, mas não se abate quando os deveres de rainha caem em seu colo. E a ousadia da bretã de cachos ruivos vai além: Merida, que sempre preferiu brincadeiras de meninos e aventuras físicas, é uma princesa que não precisa de um príncipe. Se essas gigantescas revoluções ficaram escondidas no meio de uma trama simples – e até convencional – é porque os compromissos de um monarca são vastos e amplos – e a Disney, a rainha da animação, não poderia desafiar tanto seu espectador.

Dois anos depois, a história se repete em Malévola, releitura que o estúdio fez de seu clássico A Bela Adormecida, uma de seus maiores pilares, tanto mitológica quanto mercadologicamente. O filme de Robert Stromberg, que estreia na direção, apresenta a história pelo ponto de vista da vilã, vivida com certa magia por Angelina Jolie, mas não para por aí. Embora seja cheio de fadas e criaturas mágicas, o filme vira pelo avesso alguns dos maiores fundamentos dos contos de fadas como nós os conhecemos em sua versão Disney.

A primeira ousadia está em apresentar heróis com  comportamento questionável, provocando a transformação da personagem principal em uma vilã. . Desde quando vemos o pais de uma heroína tomando atitudes que até pouco tempo atrás seriam consideradas desleais nas fábulas para crianças? Desde quando “bons monarcas” ficam loucos? Quem assiste filmes da Disney sempre espera papeis bem definidos durante a trama. Aqui, os papeis se misturam, sobretudo quando se manobra para aproximar heroína e vilã, confundindo o perfil da última. Não se trata de uma redenção pura e simples – essa, sim, seria um clichê -, mas de dar complexidade para a personagem.

Outro ponto importante, e talvez a maior das revoluções do filme, sai da boca de Malévola: “não existe amor verdadeiro”. Parece apenas recalque de uma mulher ferida, mas essa concepção nos leva a um final absolutamente chocante, que implode um das bases elementares do universo Disney: como Merida, Aurora é uma princesa que não precisa de um príncipe. Príncipes, segundo a lógica do filme, são uma bobagem, acessórios completamente desnecessários para chegar a um “final feliz”. O verdadeiro amor até pode existir, mas não precisa ser materializado no beijo na boca entre um homem e uma mulher. Um beijo na testa já resolve. E não precisa ter amor carnal insinuado.

Por fim, a própria concepção do “final feliz” é colocada em xeque. Segundo Malévola, os fins justificam os meios e quem precisa sair de cena para que todos vivam felizes para sempre não é exatamente o “cara mau” da história, pelo menos no que a Disney nos ensinou sobre quem é o “cara mau”. Príncipe e princesa podem até terminar juntos, mas casamento é coisa do passado. Embora falte um texto mais refinado e uma direção mais autoral, embora haja um clima mais conciliador no miolo do filme, Malévola lança sementes bem importantes para o futuro da Disney. Talvez desconstruir seus mitos seja a melhor maneira de conversar com uma nova geração, que também talvez não esteja tão disposta a comprar contos de fadas tão coloridos.

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[Maleficent, Robert Stromberg, 2014]

Comentários

comentários

Um pensamento sobre “Malévola”

  1. Pensei justamente em Valente quando vi o filme e adorei que você citou o filme no início do texto. Acho que a tendência é vermos princesas mais “terrenas” daqui pra frente mesmo. E a música da Lana Del Rey no final? Deu um tchan no desfecho, eu achei.

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