[mostra de cinema de são paulo – boletim onze]


[o sol ]
direção: Alexander Sokurov.

The Sun/Solntse, 2005. Sokurov fecha seu ciclo dos grandes líderes com um belíssimo réquiem para Hiroito, que ganhou um intérprete soberbo em Issey Ogata, que entendeu tudo o que o filme exigia. Seu protagonista esconde no discurso aleatório o imenso senso de responsabilidade que guarda. Ao contrário de Hitler em Moloch e Lênin em Taurus, o isolamento do imperador japonês não tem a mesma câmera imensa e os planos abertos dos outros dois filmes. A bela fotografia, desta vez assinada pelo próprio cineasta, privilegia espaços menores, condenando Hiroito à claustrofobia. A cena do bombardeio de Tóquio é magnífica.

Com Issey Ogata, Robert Dawson, Kaori Momoi, Shiri Samo.

[o caso mattei ]
direção: Francesco Rosi.

Il Caso Mattei, 1972. Competentíssimo documento de Francesco Rosi, que ganha três planos de ação: o da investigação sobre a morte de Mattei, os flashbacks de sua história e o do processo de coleta de material para o próprio filme, assumindo uma metalinguagem tão bem inserida quanto os flashbacks. Gian Maria Volonté, um dos maiores atores do cinema político italiano, mais uma vez, está perfeito.

Com Gian Maria Volontè, Luigi Squarzina, Gianfranco Ombuen, Edda Ferronao.

[síndromes e um século ]
direção: Apichatpong Weerasethakul.

Sang Sattawat/Syndromes and a Century, 2006. O filme de Apichatpong Weerasethakul, a princípio, se apresenta com um exemplar do cinema oriental que finalmente parece genuíno ao tratar do microverso do cotidiano, dos pequenos amores, dos detalhes. Mas depois de estabelecer personagense dramas, o tailandês nos explica que seu filme é sobre o mundo em construção. E, como conseqüência, é o cinema em construção. Neste renascimento do filme, há um momento que condensa a experiência do diretor, quando numa passarela, dois grupos se cruzam, como se Weerasethakul saudasse o duplo e instalasse seu cinema num tempo zero, onde a história sempre amanhece outra vez, sempre de outro jeito. E então, numa cena casual, num momento em que nada parecia ser mais genial, meus olhos se enchem d’água quando a câmera se move e revela que a velha doutora tailandesa estava ali, me olhando, testemunhando tudo o que eu acho que descobri.

Com Nantarat Sawaddikul, Jaruchai Iamaram, Sophon Pukanok, Jenjira Pongpas, Arkanae Cherkam.

[hamaca paraguaya ]
direção: Paz Encina.

Hamaca Paraguaya, 2006. A princípio, me incomodou bastante a radicalização da forma, que pareceu mais pretensiosa do que qualquer coisa, mas Paz Encina merece todos os créditos por ter sustentado sua proposta estética do começo ao fim e, exatamente no fim, reafirmando, justificando e validando suas opções. Os quadros fixos são muito longos, o que demanda uma disposição bastante razoável do espectador. A sobreposição dos diálogos, também utilizada de maneira radical, transforma cada cena em duas, criando um efeito narrativo ousado e reforçando o potencial dramático da história, que certamente seria mais uma inócua pequena história de gente simples contada de outra forma.

Com Georgina Genes, Ramón del Río.

[luzes na escuridão ]
direção: Aki Kaurismäki.

Laitakaupungin Valot, 2006. Kaurismäki encerra sua trilogia dos perdedores com uma história apática, rodada de maneira apática e com um protagonista que, de tão apático, até demanda certa identificação. A meu ver, é um modelo de pessimismo esgotado que não funciona mais – eu, inclusive, nunca achei que tivesse funcionado, mas estou sozinho nesta – nem com a apropriação de um noir transviado com direito a loira fatal e tudo. A sucessão de tragédias na vida do guarda noturno é exagerada demais que somente escapa da comparação com novelas mexicanas por causa da direção fria do finalndês. Koistinen é um anti-herói pelo qual não dá gosto torcer.

Com Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria Heiskanen, Ilkka Koivula.

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