Steven Soderbergh

Che: O Argentino EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
Che: A Guerrilha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh

Steven Soderbergh é um dos cineastas mais insólitos do mainstream norte-americano. Estreou alternativo, com sexo, mentiras e videotape, Palma de Ouro em Cannes; pareceu mais respeitável para ganhar o Oscar de melhor diretor por Traffic e fazer Erin Brockovich. No meio disso tudo, fez coisas estranhas como Kafka e Bubble e comédias divertidas com a série Onze Homens e um Segredo. Soderbergh vai do grande ao pequeno, do ousado ao despretensioso, com facilidade. Erra e acerta com freqüência. Quando anunciou que faria uma cinebiografia de Che Guevara, seria lógico pensar que este seria um de seus filmes sérios e convencionais. Sério, o projeto é. Convencional, nem tanto, principalmente para os padrões norte-americanos.

O projeto Che foi dividido em dois: O Argentino, que acompanha Guevara na Revolução Cubana, e A Guerrilha, retrato de seus últimos anos, treinando militantes na Bolívia. Ambos são obras com forte cunho documental, baseadas nos diários escritos pelo próprio Che, onde Soderbergh surpreende fazendo um retrato apaixonado do revolucionário. São quase filmes-panfleto, que transportam o personagem para aquele plano onde estão as criaturas inquestionáveis. Mas o diretor adota esta postura sem os exageros dramáticos comums a obras dessa natureza. Soderbergh vira advogado de defesa de Che Guevara em pequenas cenas que retratam, sobretudo, o código de ética e o senso de moral do personagem em meio à batalha.

Steven Soderbergh

Esta opção parece, a princípio, esconder a interpretação de Benicio Del Toro, já que não existem arroubos narrativos ou dramáticos comuns para se exaltar uma performance, convencer a platéia e ganhar prêmios. Não há nada parecido com um “eu estou grávida de Luís Carlos Prestes”, por exemplo. Do começo ao fim, o ator está discreto, sutil e silencioso. E, por isso mesmo, constrói aos poucos um personagem de primeira grandeza, de certa forma respeitando o Guevara vivido por um simpático Gael García Bernal em Diários de Motocicleta, mas o lançando num outro patamar de interpretação. A performance de Del Toro reflete o tom adotado por Soderbergh e vice-versa.

Em O Argentino, a opção por duas linhas narrativas paralelas causa um certo estranhamento. A primeira, em p&b com Guevara ministro, remonta o cinema norte-americano dos anos 70, factual, articulado e político. A segunda, com o cotidiano da guerrilha se alinha a um modelo narrativo mais atual, que explora detalhes em excesso, muitas vezes deixando o foco principal do filme para se ater a minúcias. As duas linhas temporais parecem competir (uma mais ágil; outra mais contemplativa, justamente a da guerra), mas terminam como complemento exato uma da outra. Este primeiro filme é um trabalho mais sóbrio do que o segundo, com uma câmera mais simples e uma trilha mais discreta.

Já o segundo longa, A Guerrilha, que adota uma narrativa única, mais simples, mas igualmente documental, permite que Soderbergh estetize mais a fotografia e que Alberto Iglesias mostre sua música. Curioso já que o filme se passa praticamente inteiro no campo de batalha. O longa funciona como contraponto para seu irmão gêmeo porque de certa forma mostra o ocaso da ideologia da Revolução Cubana. Del Toro mantém a mesma interpretação naturalista, mas agora com um quê mais melancólico diante de uma luta que não foi comprada pela população. Soderbergh, no entanto, encerra o longa com a mesma paixão juvenil que demonstrou, ainda que sem reverência, por aqueles devaneios ideológicos. Soderbergh é mesmo um dos cineastas mais insólitos do mainstream norte-americano.

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9 comentários sobre “Mostra SP 2008: boletim 10”

  1. Experimental mesmo foi o longa que o cineasta realizou tendo ele mesmo como protagonista (SCHYZOPOLIS ou algo assim era o título), Chico Bombeiro.
    Experimental e ATROZ. Ruim como o abominável-e nada experimental-segundo episódio na saga dos Hollywoodianos atacando cassinos mas abominável do mesmo jeito.

  2. Assisti o filme e confesso que fiquei um pouco frustrado. A visão filmada do Che me pareceu um tanto fria e descompromissada. O filme se arrasta, em certos momentos, dando um pouco de sono. Muitas cenas fortes de eliminações de inimigos e traidores foram suprimidas, dando um ar romântico ao filme. Recomendável, mas nada que justifique a disputa de prêmios.

  3. Gostei desde o início da idéia de se fazer um filme sobre Chê depois de Diário de motocicleta (primeiras viagens).
    As fotos de Del Toro me impressionaram, porque é fácil reconhecer o personagem e esquecer o ator.
    O trailer foi um pouco fraco mas espero mais do filme. Faltou comentar a participação de Rodrigo Santoro no filme (que não se parece nem um pouco com o Raul).

  4. Olá, chico.

    Parabens pela cobertura da Mostra. To terminando de fazer a minha no meu blog, e concordamos com muita coisa, discordando radicalmente em outras (Liçoes Particulares, por exemplo, que eu adoro).

    Abraços!

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