A História da Eternidade

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[A História da Eternidade, Camilo Cavalcante, 2014]

As mesas de almoço são fartas em A História da Eternidade. O sertão do filme de Camilo Cavalcante é tão árido quantos os outros sertões da ficção, mas não é a fome ou a miséria que está em questão. O longa fala de um certo peso ancestral que cai sobre os ombros dos moradores dos confins do Nordeste brasileiro. Nesse sentido, o diretor traz uma visão um tanto mística sobre essas pessoas, como se elas fossem condenadas pelo destino, amaldiçoadas pela inevitabilidade da tragédia. Não por acaso, as três protagonistas das histórias entrelaçadas que costuram o filme são mulheres, o que acentua sua sina de sofrimento. Cada uma começa o filme com um martírio: Querência enfrenta a perda; Das Dores encara a solidão; Alfonsina padece com a falta de perspectivas. No decorrer de duas horas, Cavalcante irá ajudar a escrever o destino destas três mulheres, incorporando fatalidades recorrentes ao microcosmo sertanejo, fantasmas que assombram aquele povo geração atrás de geração. É verdade que o diretor abusa de uma poesia calculada em vários momentos do filme. A personagem de Irandhir Santos estrela vários deles e parece uma personagem improvável naquele contexto de conhecimento limitado. Mas os excessos do papel e do próprio filme ajudam a entregar algumas cenas memoráveis, como a bela recriação de “Fala”, dos Secos e Molhados. Uma epifania em meio a uma história com os pés no chão. Talvez os abusos de Cavalcante sejam exatamente isso, epifanias, momentos de liberdade poética extremos no meio de um filme tão fatalista. Por isso mesmo, o excesso parece encontrar um espaço adequado nessa reflexão sobre a Grande Tragédia do Sertão. Não bastasse, Camilo Cavalcante cria uma lindíssima cena final. Uma cena em que declara seu carinho pelas três personagens principais, curando Querência, confortando Das Dores e libertando Alfonsina.

O Pequeno Quinquin

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[P’tit Quinquin, Bruno Dumont, 2014]

O Pequeno Quinquin incomoda muito mais do que qualquer coisa. É difícil não se abalar com algumas das opções de Bruno Dumont para esta minissérie para a TV francesa, convertida num filme de 200 minutos exibidos em festivais de cinema. Ao contrário do que se poderia imaginar pela imagem de filme infantil, o cinema e os debates do Bruno Dumont aparecem nesta nova obra e mais firmes do que nunca. Todas as questões religiosas, todas as dúvidas espirituais, todos os conflitos, sobretudo o medo do Mal, crescem à medida que descobrimos que Quinquin não é o protagonista do filme. Dumont utiliza a personagem para se aproximar de elementos que o assombram, como se a maldade inocente das crianças aliviasse essa proximidade. A quantidade de atores com algum tipo de deficiência física ou mental impressiona. O diretor parece querer incomodar e faz isso de forma mais contundente quando o espectador se percebe rindo das trapalhadas dos atores. Se o filme não exatamente explora a condição deles, também não os poupa de nada, deixando para quem assiste a responsabilidade sobre as risadas nas piadas que surgem como consequências de suas deficiências. Essas camadas secretas fazem de Quinquin, se não um bom filme, uma obra perturbadora e obrigatória.

Cássia

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[Cássia, Paulo Henrique Fontenelle, 2014]

É engraçado como um filme bate de maneira diferente para cada pessoa. A subjetividade vem da memória, das experiências. É impossível ter exatamente a mesma impressão que outra pessoa depois de uma sessão de cinema. Louco é quando um mesmo filme bate de maneiras diferentes para a mesma pessoa. Cássia, documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre a Cássia Eller, não é um grande filme. Por sinal, é um filme tradicional, até quadrado, que parece menor do que sua protagonista. Ainda mais quando a gente sabe que o diretor fez o excelente Loki, sobre o mutante Arnaldo Baptista. Mas curiosamente esse longa convencional deixa a impressão de que sua protagonista é uma gigante. Cássia é um filme bastante emocional e não por causa de sua excelente pesquisa de imagens, sobe sons e depoimentos, mas porque assisti-lo faz crer que seu diretor se envolveu tão profundamente com o projeto ao ponto de não achar pontos de corte num filme que claramente tem um excesso de material. O foco numa Cássia Eller por trás do microfone cria uma identificação grande do espectador com o longa. Faz pensar muito sobre o que é importante. Sobre o que nós construímos. Sobre quem amamos. Sobre família e amigos. Não achar Cássia um grande filme não inviabiliza dizer que Fontenelle fez um trabalho especial. Vai entender o ser humano, né?

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