Muito Barulho por Nada

Depois de terminar as filmagens de um blockbuster do porte de Os Vingadores, todo mundo, inclusive a Marvel, achava que Joss Whedon merecia uma folga. Menos ele, que não nega a si próprio pequenos prazeres e reuniu um grupo de amigos em sua casa, em Santa Monica, para filmar em segredo esta versão que traz o texto original de Muito Barulho por Nada, de William Shakespeare, para os dias de hoje. Foram apenas 12 dias de filmagens e um clima de total camaradagem que dá o tom da adaptação.

Para quem conhece um pouco da obra do homem que escreve quadrinhos de super-herói e é o criador de séries de pop de horror e ficção-científica, a surpresa com o material não é tão grande. Whedon geralmente tem um texto saboroso e aqui imprime bastante fluidez ao que Shakespeare escreveu séculos atrás. É bem verdade que Muito Barulho por Nada é uma das peças mais leves e ágeis do dramaturgo inglês, mas essa nova tradução, rodada em cenário único, ganha na câmera inquieta e na maneira informal como o diretor parece comandar os atores.

O elenco é um compêndio de antigos colaboradores: Alexis Denisof, Amy Acker, Fran Kranz e Nathan Fillion vieram de suas série de TV e Clark Gregg, de Os Vingadores, só para citar alguns. Denisof e Gregg estão inspirados, mas Acker, cheia de jovialidade, entrega uma Beatrice tão deliciosa quanto a de Emma Thompson na versão dirigida por seu então marido Kenneth Branagh. Por sinal, a intimidade que determina muito do bom resultado do filme, não por acaso, lembra muito do que Branagh, também cercado por um grupo de amigos, conseguiu vinte anos atrás.

O texto, embora seja extremamente fiel ao original, no inglês arcaico, ganha uma coloquialidade impressionante. Whedon só mudou uma frase da peça de Shakespeare: “I’m a jew”(“eu sou um judeu”) virou “I’m a fool” (“eu sou um tolo”). Ninguém perceberia se não for um conhecedor do original porque nada perde o sentido. A maior alteração talvez seja o sexo do personagem Conrade, que vira uma mulher na nova versão. Essas recolocações parecem apenas reforçar a universalidade do texto, a essência da comédia romântica, do jogo amoroso, que ganhou desta vez uma adaptação que não é melhor nem pior do que o que já se havia feito porque tem uma característica inédita: se assume como uma brincadeira o tempo todo.

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[Much Ado About Nothing, Joss Whedon, 2012]

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