NARRADORES DE JAVÉ

O que poderia ser estigma é o maior trunfo de Narradores de Javé. Há muito tempo foi estabelecido na nossa cultura, a brasileira, que o nordestino é um ser engraçado. Que fala engraçado, age engraçado, que é engraçado. Um estereótipo que beira o preconceito. Eliane Caffé se apóia nesta idéia para conduzir seu novo filme, mas tem a sorte de homenagear a simplicidade do sertanejo em vez de condená-lo ao julgamento de sua condição de pobre e de semi-analfabeto. O filme narra a tentativa dos moradores de uma cidadezinha de salvar suas vidas, ameaçadas de serem afogadas por uma barragem. Para tanto, eles contratam o mentiroso-mor do lugar, Antônio Biá, o protótipo do nordestino espertinho, que tem a missão de registrar no papel a rica história da cidade, que passa de boca em boca. O problema é que a história muda radicalmente de um para outro morador. Eliane Caffé revela uma habilidade curiosa ao mesclar humor e delicadeza neste longa, além de uma competência técnica invejável (a fotografia é linda, a edição, riquíssima e inteligente, e a direção de arte no tom certo, sem exageros). O elenco é a maior atração. De José Dumont, mais uma vez perfeito ao povo das cidadezinhas visitadas pela equipe, coadjuvantes divertidos. A diretora faz um filme engraçado e doce, equilibrado, muita coisa no cinema brasileiro, acostumado a narrar grandes sagas e morrer no discurso que não tem nada a dizer.

Narradores de Javé
Narradores de Javé, Brasil, 2003
Direção: Eliane Caffé.
Elenco: José Dumont, Matheus Nachtergaele, Nélson Dantas, Rui Resende, Gero Camilo, Luci Pereira, Nelson Xavier.
Roteiro: Luiz Alberto de Abreu e Eliane Caffé. Edição: Daniel Rezende.Fotografia: Hugo Kovensky. Direção de Arte: Carla Caffé. Música: DJ Dolores e Orquestra Santa Massa.

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