Oscar 2013

filme

Amor, Michael Haneke
Argo, Ben Affleck
As Aventuras de Pi, Ang Lee
Django Livre, Quentin Tarantino
A Hora Mais Escura, Kathryn Bigelow
Indomável Sonhadora, Benh Zeitlin
O Lado Bom da Vida, David O. Russell
Lincoln, Steven Spielberg
Os Miseráveis, Tom Hooper

Chegamos ao fim de mais uma temporada de prêmios de cinema com a entrega do Oscar e, pela primeira vez na história da Academia, temos um favorito a melhor filme que não teve o diretor indicado. Três filmes já ganharam o Oscar sem que seus cineastas aparecessem na lista de finalistas em sua categoria. Dois deles foram nos primórdios do prêmio, quando as “regras” do Oscar ainda estavam sendo desenhadas. O terceiro, em 1990, foi Conduzindo Miss Daisy, um Oscar surpresa, quando todos imaginavam que Oliver Stone e seu Nascido em 4 de Julho saísse da festa com a estatueta nas mãos. Então, por mais que se tente criar um background, a situação que temos neste ano é totalmente inédita.

Argo é um favorito absoluto. Foi o primeiro filme a ser apontado como candidato sério à vitória, viu sua carreira perder espaço para alguns adversários, mas como estava há mais tempo na estrada ficou na memória de muita gente e ressurgiu na hora final, ganhando o Critics Choice, o Globo de Ouro, os prêmios dos sindicato dos produtores, diretores, atores, roteiristas e montadores, além do BAFTA, o Oscar inglês. Cem por cento de aprovação nos grandes prêmios. Seu único obstáculo é a não-indicação de Ben Affleck. Eleger o melhor filme sem que seu principal responsável seja ao menos candidato parece bem esdrúxulo, mas é o que provavelmente vai acontecer neste domingo porque a Academia armou uma cilada para ela mesma.

Quem vota nos prêmios de crítica é pago para ver filmes. Quem vota no Oscar é pago para fazer filmes. Vê quando dá, quando tem vontade. Vai pro cinema de vez em quando, nem precisa ser cinéfilo. Quando a Academia resolveu antecipar a votação para eleger os indicados a seu prêmio, seus membros tiveram que se virar para descobrir em quem iriam votar já que muitas das premiações em que eles se baseiam ainda não tinham sido anunciadas. Imagino a correria do técnico de som e do ator coadjuvante para saber quais eram as apostas do momento, para tentar ver os filmes antes de votar. A indicação de Jackie Weaver como atriz coadjuvante parece um fruto direto disso: “já votei nos outros três, deixa eu colocar ela também”.

Esta antecipação de certa forma deu uma independência à Academia, libertando-a da relação íntima com os outros prêmios, todos curiosamente inspirados ou justificados pelo Oscar. Por outro lado, revelou que seus integrantes estão meio alheios da movimentação cinematográfica, do buzz, do que está acontecendo. Alguns especialistas tentaram justificar a não indicação de Affleck assim: “ah, todo mundo vai votar nele, deixa eu escolher outro”. Acho mais fácil que o pensamento tenha sido justamente o contrário: “me dá um nome aí porque eu preciso fechar a lista”. E não se trata de justiça ou injustiça com Argo, que é um bom filme, mas não tem nada de espetacular. A questão é que o Oscar sempre coroou a temporada, mesmo que os resultados fossem diferentes dos outros prêmios. Ignorar o diretor de um dos filmes mais comentados do ano ficou feio, pegou mal. Por isso, muita gente pode votar em Argo só para fazer uma espécie de “justiça torta”.

Mas a Academia pode, sim, ignorar toda essa polêmica, virar de costas pro mundo e dizer “quem manda aqui sou eu”. Já fez isso com um filme medíocre como Crash, que ganhou do favorito O Segredo de Brokeback Mountain e fez com que o Oscar ignorasse uma tendência mundial. Pelo menos Paul Haggis estava indicado. Desta vez, Argo não sofre da resistência que impediu a vitória dos caubóis gays, mas premiar outro filme pode ser visto como um ato de independência da Academia, o que ajudaria a jogar sua suposta “cagada” para debaixo do tapete. Neste caso, perderia o favorito, o que pela lógica da temporada é o mais merecedor, mas ganharia um filme melhor, Lincoln, de Steven Spielberg. Líder de indicações, seria uma opção natural da Academia, sem contar com a assinatura de um veterano, um elenco de respeito e um tratamento sério para um símbolo da América. Pode acontecer. Mas provavelmente não vai.

Uma terceira opção seria apostar em As Aventuras de Pi, de Ang Lee, escapismo maior não poderia haver, mas o filme teve uma recepção bem uniforme e quilos de indicações. O Lado Bom da Vida poderia ser uma alternativa, já que concorre em todas as categorias de elenco, roteiro, montagem e direção, além de ser distribuído pelos Weinstein, mas diante da polêmica, será que lembrariam dele? E Amor, de Michael Haneke? O austríaco roubou de Ben Affleck uma vaga entre os diretores. Roubaria mais? Difícil para um filme estrangeiro, mas não impossível para um filme estrangeiro que rompeu tantas barreiras. Os Miseráveis parecia um projeto ameaçador, mas morreu na praia e chegou sem força à reta final. Django Livre não fez muito sucesso nos prêmios prévios, Indomável Sonhadora é indie demais e A Hora Mais Escura perdeu muitos pontos com a injusta acusação de que apoiaria tortura.

É, esse Oscar é bem estranho. Parece ter dono, mas o dono por pouco não é convidado para a festa.

Quem ganha: Argo, Ben Affleck
Quem ameaça: Lincoln, Steven Spielberg
Quem merece: Lincoln, Steven Spielberg
Quem faltou na lista: O Mestre, Paul Thomas Anderson

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