RoboCop

Estamos em novos tempos. Não há mais espaço para uma mão explodindo na tela ou um corpo tendo os membros decepados a tiros de metralhadora. E a reinvenção de RoboCop saiu bem melhor do que encomenda. José Padilha nunca foi um dos favoritos da casa, mas é louvável sua disposição para mexer no vespeiro que é refilmar um dos longas mais célebres de Paul Verhoeven, por sua vez, um dos cineastas mais cultuados das últimas décadas. Onde o holandês fazia um cinema mais direto, com mais impacto, sem lançar reflexões profundas, o brasileiro aposta num roteiro um tanto mais sofisticado, que faz mais relações com o momento político atual.

Os dois Robocops são filmes que seguem caminhos diferentes, mas atiram em direções certas. Padilha traz muito dos temas que explorou em seus filmes brasileiros, sobretudo em seu melhor trabalho, Tropa de Elite 2, se dedicando a detalhar relações de poder e articulações políticas e suas implicações na vida do homem, do cidadão. Enquanto Verhoeven tratava do drama familiar do policial Alex Murphy em flashbacks que remontavam o convívio com sua mulher e seu filho, Padilha dá a estes dois personagens uma relevância maior, explorando seu protagonista de forma em nuances mais dramáticas.

O cineasta brasileiro não parece preocupado em entregar cenas de ação nos primeiros momentos do filme. Durante mais de meia hora, ele de dedica exclusivamente a reinventar detalhadamente a história de seu personagem, sua transformação e preparação para ser reinserido no “mundo lá fora”. Gasta o que pode para estabelecer relações, entregar bastidores e decifrar subtramas que garantam um background substancial em que possa trabalhar o protagonista, o que Verhoeven faz de maneira mais objetiva e mais bem humorada.

No entanto, o RoboCop sério de Padilha não parece didático demais, como poderia ser e abre espaço para que dois ótimos personagens entrem em cena: o cientista que conduz os experimentos que criam o novo policial, interpretado por Gary Oldman, que credibiliza a discussão moral que atravessa o personagem e o apresentador de TV vivido por Samuel L. Jackson, mutação do casal de jornalistas do filme original que tinham tanto a função de contextualizar o mundo em que vive o protagonista como eram respiros para que Verhoeven exercitasse seu humor negro. Jackson faz um personagem mais contemporâneo, tão perigoso quanto o apresentador de Tropa de Elite 2, que tem um envolvimento bem mais direto com a trama.

O plano de Padilha para deixar o projeto de um novo RoboCop mais relevante (ou para diferenciá-lo do original) funciona muito bem, inclusive como entretenimento. A escolha de Michael Keaton como vilão principal é um dos acertos. O ator assume bem o personagem, mas sua simples presença tira o peso que o filme poderia ter. O novo longa tem cenas de ação muito bem construídas, um visual excepcional, da direção de arte aos efeitos visuais, embora o figurino do policial do futuro seja mais questionável, e as colaborações dos brasileiros Lula Carvalho na fotografia, Daniel Rezende na montagem e Pedro Bromfman na trilha sonora, têm todas seus momentos de destaque. Bromfman, por sinal, reinterpreta o tema do filme original e cria uma trilha sinfônica bem diferente dos épicos que musicam longas de ação.

Provavelmente, os fãs de Verhoeven já estão no modo automático, prontos para alfinetar o filme de Padilha, mas a estreia do brasileiro em Hollywood, que ele mesmo classifica como a pior experiência de sua vida e que não emplacou na bilheteria, foi um bom começo para o diretor. Padilha parece ter conseguido se infiltrar nas engrenagens e, mesmo sem ter feito tudo o que queria, introduzir questões suas – com competência – num blockbuster hollywoodiano. E isso está longe de ser pouco.

RoboCop EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[RoboCop, José Padilha, 2014]

Comentários

comentários

6 comentários sobre “RoboCop”

  1. Infelizmente o filme está muito mal de crítica e de bilheteria nos EUA e na Europa. Apesar de não achar o filme grande coisa e tb duvidar da opção de refilmar um filme muito conhecido, cult e não tão antigo acho que até merecia mais. Ultimamente quem vai pra lá volta rapidinho e passa desapercebido, vide o próprio Meirelles que começou mto bem e foi caindo, o Waltinho fez bate volta, o Heitor Dhalia tb…uma pena, enquanto os mexicanos estão em alta nós continuamos nas cercanias.

  2. Onde o Padilha disse que foi a pior experiência da vida dele, Chico? O que eu vi foi a constatação de que, por mais difícil que tenha sido filmar, ele logo se inseriu no esquema de forma prática e negociável. Lembro do Fernando Meirelles ter dito que ouviu dele o quanto sofria por lá, mas depois parece que ambos esclareceram essa afirmação. Até onde sei, o Padilha não se arrependeu.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *