Rush

Ron Howard é um colecionador de filmes de gosto duvidoso que parece só revelar seus talentos como cineasta quando encontra certos parceiros. Ou talvez o parceiro certo, como no caso do roteirista Peter Morgan. A primeira colaboração entre os dois, cinco anos atrás, resultou num trabalho delicado – e sóbrio, coisa rara na carreira de Howard. Frost/Nixon, baseado na peça de Morgan, reconstitui a célebre entrevista que o jornalista inglês David Frost arrancou do presidente americano Richard Nixon. Mais do que reconstruir fatos, diretor e escritor ajudam a materializar um período histórico.

Rush – No Limite da Emoção, segundo trabalho em que os dois se encontram, faz algo parecido. O filme, que basicamente acompanha os anos de rivalidade entre o austríaco Niki Lauda e o britânico James Hunt, recria na tela não apenas as histórias dos dois pilotos de Fórmula 1, mas o espírito de uma época. Ao contrário dos tempos politicamente corretos – e mais seguros – de hoje, o esporte na década de setenta ainda guardava muito de um certo instinto brutal que fazia com que os pilotos arriscassem suas vidas como se as pistas de alta velocidade fossem campos de batalha. As posturas agressivas e os procedimentos de segurança ineficazes geravam pelo menos uma baixa por ano.

A combinação dos talentos de Morgan e Howard consegue capturar esse espírito. Enquanto o roteiro
é discreto em mapear os personagens, descobrir suas motivações, reconstituir suas personalidades, a tendência mais emocional do cineasta ajuda a dimensioná-los e entender sua rivalidade. Howard põe molho no trabalho de Morgan, cujo tom determina os limites dramáticos para a mão do diretor. Esse ponto de encontro consegue dar credibilidade ao recorte do filme, o duelo entre os dois pilotos, que poderia facilmente cair em simplificações, mas que esbanja sobriedade e empolgação.

Niki Lauda, o verdadeiro, foi uma espécie de consultor do filme, embora tenha reclamado da austeridade com que foi retratado. O espanhol Daniel Brühl que assume o papel do piloto, às vezes, peca pelo excesso de caracterização, sobretudo no semblante ostensivamente fechado, mas no geral consegue tornar palpáveis o perfeccionismo e as obsessões de Lauda (e pode ser indicado ao Oscar). Chris Hemsworth, o Thor dos filmes da Marvel, usa o porte atlético e a pose de galã para dar vida ao inconsciente James Hunt, um piloto que parece motivado unicamente pela richa com Lauda, mas, mesmo com um personagem que exige menos, defende bem a espontaneidade do piloto.

A concisão do roteiro se reflete também na fotografia e na montagem que, combinadas a um impecável trabalho de som, recriam os grandes prêmios da época com riqueza de detalhes. A técnica dá o suporte necessário para que o filme reinvente aquele entusiasmo sem passar do ponto, embora a trilha de Hans Zimmer tente sabotar o projeto aqui e ali. A parceria entre Morgan e Howard parece ter encontrado no automobilismo, como no jornalismo, um material perfeito para que cada um desenvolva seus pontos fracos. Se o diretor finalmente aprendeu a pisar no freio, o roteirista descobriu como acelerar.

Rush – No Limite da Emoção EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Rush, Ron Howard, 2013]

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7 comentários sobre “Rush – No Limite da Emoção”

  1. Dos vários filmes de corrida que já foram feitos, só perde para “Grand Prix”. É bom filme e eu tenho certeza que diretor e roteirista assistiram várias vezes o filme do Frankenheimer. Tudo em “Rush” lembra Grand Prix. Já que os atores estiveram tão bem quanto aqueles do filme de 1966 (ou 68?) só faltou mesmo uma trilha sonora tão legal quanto a do Maurice Jarre.

  2. Dos vários filmes de corrida que já foram feitos, só perde para “Grand Prix”. É bom filme e eu tenho certeza que diretor e roteirista assistiram várias vezes o filme do Frankenheimer. Tudo em “Rush” lembra Grand Prix. Já que os atores estiveram tão bem quanto aqueles do filme de 1966 (ou 68?) só faltou mesmo uma trilha sonora tão legal quanto a do Maurice Jarre.

  3. Chico, só não gostei de no fato de todos os materiais de divulgação que vi até agora, incluindo trailer e teasers, o Chris Hemsworth tomar a frente do filme e dos papeis (provavelmente por ser um rosto mais conhecido). Para os fãs de automobilismo em geral, seria muito mais interessante o foco estar em Niki Lauda, não acha?

    Abraços!

  4. Ficou bem legal a crítica. Eu não sou muito fã de Ron Howard, mas concordo com você, Frost / Nixon é um bom filme. E sou muito fã de Fórmula 1, então com certeza verei esse.

    Uma correção: não são “os anos” de rivalidade entre os dois pilotos. O filme retrata apenas uma temporada, a de 1976.

    1. O filme mostra apenas uma temporada de Fórmula 1, mas também traz cenas que se passam alguns anos antes, quando Hunt e Lauda se conheceram na Fórmula 3. Por isso “os anos” de rivalidade.

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