Salomé

As imagens que ilustram este post não são de um clipe da Lady Gaga. A vamp que você acima se chamava Alla Nazimova, uma das maiores estrelas de Hollywood entre o final da década de 10 e a primeira metade dos anos 20, uma fonte de inspiração para alguns dos visuais mais clássicos da estrela de “Bad Romance”. E para a atitude de Gaga também. Nazimova, como assinou seus filmes mais célebres, era uma artista de vanguarda, que não tinha pudores em se arriscar em projetos pessoais e ousados que decretaram sua ruína financeira. Um deles foi Salomé, adaptação para o cinema da peça de Oscar Wilde, que o então marido de Nazimova, o também ator Charles Bryant, dirigiu com todos os abusos estéticos possíveis.

Os cenários, estilizadíssimos, levavam para o cinema americano muito do impacto visual dos filmes expressionistas alemães, mas com sombras menos opressivas, numa pegada mais pop, mais gay na verdade. Bryant, que era homossexual e seu relacionamento de mais uma década com Nazimova ajudava a acobertar sua orientação, assim como a bissexualidade da estrela. A atriz, nascida no que hoje é uma região da Ucrânia, começou a carreira no palco, estudou com Stanislavsky e tudo, e logo foi importada para a Brodway, onde ficou conhecida como protagonista de textos de Ibsen. Do palco, Nazimova trouxe suas interpretações monumentais, que cabiam dentro do projeto estético de Salomé, onde o artificial ditava a regra.

No filme, a atriz passeia pelo cenário como se estivesse num espetáculo de balé moderno, com vários momentos puramente pictóricos, o que parecia ser a meta de Bryant, uma espécie de Baz Luhrmann mais conceitual de sua época. Nazimova desfila figurinos sensuais, longos ou curtos, muda de roupa no meio das cenas e usa um corpo de balé vestido com pesados trajes geométricos, que visivelmente serviram de fonte da Lady Gaga. Um dos penteados que Salomé usa no filme é a mesma peruca loira que a cantora exibia alguns anos atrás.

Embora tenha sido um fracasso na época – Nazimova, que foi produtora e perdeu muito dinheiro -, Salomé é uma obra impressionante até hoje em dia. E um filme injustamente esquecido. Talvez fosse apenas a egotrip de uma estrelas sem limites, mas o longa de Bryant, um projeto arriscado, estilizado e conceitual, que ajudou a quebrar alguns parâmetros da estética dominante nos anos 20. E serviu para imortalizar Alla Nazimova. Pelo menos na cabeça de Lady Gaga.

Salomé EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Salomé, Charles Bryant, 1923]

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